Sexo

João Luiz Vieira

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Na real, o espetacular é sentir o gasto de energia no bater das asas
Na real, o espetacular é sentir o gasto de energia no bater das asasFoto: Cortesia

Pena que dizem que ficar velho é o pior dos mundos. Não chega a tanto, creio. É quase isso, mas aqui vou me ater a apenas uma questão no terreno da sexualidade, meu objeto de estudo: o desejo. Pena, a propósito, porque se não existisse pressão por consumo sequencial de produtos, de afetos e de trepadas (há), o melhor "produto" para amar seria alguém maduro. Ele espera, entende e sabe que tudo é questão de tempo porque, afinal, maduro, no ponto de ser consumido.

Tranquilamente, ele espera você, imaturo (que não é ofensa, é constatação), se debater como um beija-flor na angústia de obter pólen. Quando, na real, o espetacular é sentir o gasto de energia no bater das asas. Não a obtenção de pólen. Como já disse anos atrás, quando era um jovem de 39 anos, o homem que eu queria encontrar estava na minha própria cama. Era eu mesmo, aos 40. Fui imaturo até lá, e a maioria dos homens o é até cair da árvore.

A um mês do início dos meus 49 anos, a sensação, difícil de explicar para quem está distante dessa fase, tem um que de bem-estar e conformação. Nada a ver com conforto ou apatia, veja bem. Ao contrário, há (ainda) desconforto e (muita) gana. Trata-se de um enlace entre o que fui ontem com o que desejei ser (ou o melhor que pude obter até este momento). Certos processos de polinização perdem completamente o sentido, embora seja muito necessário para gerações mais novas. Como se já tivéssemos comido, bebido e transado o necessário (ou não).

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Reparou que abri e fechei muito mais parênteses que meu costume neste texto? Na minha opinião, amadurecer tem a ver com estar cada vez mais entre parênteses: o dito e o desdito, o falado e o pensado, o sim e o não é bem assim. As dúvidas seguirão à frente, nos testando. As certezas, preguiçosas, ficarão grudadas em nossas costas, impedindo movimentos mais arriscados, incertos. Ser maduro é um paradoxo em si: você está no ponto para ser mastigado, mas não abre tantos apetites. Não da mesma forma de quando estava verde.

* João Luiz Vieira, 47, é jornalista, roteirista, letrista e educador sexual, ou sexólogo, como preferir. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas). É sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo.

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