Sexo

João Luiz Vieira

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"A gente morre é para provar que viveu"
"A gente morre é para provar que viveu"Foto: Cortesia

Nasci ansioso, com quase dez meses, ou seja atrasado, praticamente usando relógio no pulso. Completei 48 anos de insistências, resiliências e retomadas de percurso. Minha mãe rasgou a vagina dela para eu sair no ano e na década que remetem a sexo, 1969, escorpião com ascendência em escorpião, o que explica, em boa parte, o porquê de eu dirigir um site como o PPQO, estar aqui apostando na Folha de Pernambuco e ter colunas no Futuro do Sexo e no UOL. Como a data me aponta mais da metade da minha existência provável, vou contar uma historinha sobre essas questões ligadas à identidade.

Aos dois anos, eu já achava brinquedo algo muito infantil, e queria aprender a ler, ou seja, consumo vem depois de entender o que preciso comprar. Meus pais diziam que eu iria dar trabalho porque meus colegas de berçário queriam objetos para por na boca, e eu nem aí para as as preferências gustativas alheias. Esqueceram de perceber que eu não fiz amizades no berçário, até porque ninguém falava mesmo. Aos cinco, precisei ir à escola porque aprendi a ler vendo TV. Aos sete já comandava as crianças do bairro com chão de areia. Organizava brincadeiras por dia e tarefas de casa ligadas a estudos. Quem não aprendesse uma palavra nova, não enfrentasse um novo desafio, não se reinventasse, não brincava. Escorpião, o aracnídeo, não anda em grupos e demarca territórios.

Aos 13 comecei a fazer sexo, porque decidi/escolhi/precisei/quis à maneira que alguém com essa idade pode fazer/decidir/escolher/precisar/querer . Aqui não entrarei em detalhes para preservar as fontes - jargão que usamos no jornalismo para guardar segredos e, sim, foram duas primas minhas. Depois mais e mais relações sexuais/fodas e sobrevivências até os 15 anos, quando dormi fora de casa por todo um fim de semana. Meus pais tinham certeza que eu daria trabalho. Decidi fazer amizade com estranhos, então, e fui ampliar os limites da minha sabedoria.

Parti para trocar fluidos em vários pontos do mapa-múndi dos corpos dos outros. Cheguei aos 18 com a carta de alforria sobre meu corpo e a curiosidade para pesquisas de campo. Sexo, afinal, também é investigação e degustação sobre o que você não tem. Casei e namorei com gente bacana, mas fui sempre íntimo de mim. Aos 40, meu corpo pediu arrego. Reservei um tempo e negociei com meu pênis. Ele topou: muito barulho por pouco.

Agora entro na terceira fase de minha atividade sexual, mas isso nem importa muito porque somos processos e não conclusões. Como diz Riobaldo em "Grande Sertão: Veredas", obra-máxima escrita por Guimarães Rosa (1908-1967): "As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão".

Minha curiosidade tem a ver com o que virá depois de minha morte. Se me permite, de novo citarei João (Guimarãe Rosa): "A gente morre é para provar que viveu", disse ele em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, três dias antes de passar para outro plano. Sim, todo mundo morre, e essa ilusão perdi quando respirei depois de cuspido pelas entranhas maternais. Aqui onde queria chegar: que questões ainda serão discutidas relativas à sexualidade humana daqui a outros 49 anos? Será que diferentes orientações sexuais ainda serão assunto para redes sociais - quaisquer delas - e/ou punidas pela Igreja, pela Família e pelo Estado - não acho que Deus tenha a ver com isso.

Será que as mulheres terão direitos equânimes aos dos homens, pedirão licença para ir e vir, ter ou não ter filhos e ainda terão de esperar autorizações para extirpar o que quiserem do próprio corpo, inclusive fetos? E, acima de tudo, não serão mais violadas em sua intimidade? Será que homens ficarão desobrigados a serem provedores e poderão ser penetrados sem diminuir sua masculinidade?

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Melhor ainda: o uso do cu para fins recreativos deixará de ser uma questão? Será que transgêneros terão recursos financeiros, psicológicos, jurídicos e sociais para impedir a cisão entre a identidade sexual e o gênero experienciado? Será que profissionais do sexo serão respeitados e considerados como tais, profissionais? Será que crianças e adolescentes terão acesso a informações ligadas às três dimensões do sexo - biológica, psicológica e social - em casa e na escola? Será que o amor será irrestrito e a opinião estrangeira será um exílio? Será que canais de comunicação como este não serão exceções e, sim, banais ou ultrapassados?

Completarei 50 anos em 2019, quando o tempo fará as pazes comigo (ou não). Espero que tudo isso que citei, insinuei, provoquei e inventei acima cause espanto nos jovens de 2069, como se fosse impertinência de gente antiga, da segunda década do século 21. Me cobra se estivermos por aqui ainda?

* João Luiz Vieira, 47, é jornalista, roteirista, letrista e educador sexual, ou sexólogo, como preferir. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas). É sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo.

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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