Sexo

João Luiz Vieira

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Na novela global, médico, que mantém um caso extraconjugal com um homem, também é homofóbico
Na novela global, médico, que mantém um caso extraconjugal com um homem, também é homofóbicoFoto: TV Globo/Divulgação

O conflito de um homem homossexual com sua própria condição está sendo desenvolvido por Walcyr Carrasco na novela das 21h da TV Globo, "O Outro Lado do Paraíso". Na trama, Samuel (vivido por Eriberto Leão, acima) é um psiquiatra, filho de Adineia (Ana Lúcia Torre, na foto), que se casa com a enfermeira Suzy (Ellen Rocche, de costas na imagem) na tentativa de esconder sua orientação sexual. O médico, que no momento mantém um caso extraconjugal com um homem, também é homofóbico. Por estar em conflito com sua natureza, e por ter armado contra a mocinha do folhetim, Clara (Bianca Bin), terá seu "segredo" revelado para a mãe nos próximos capítulos.

A proposta do autor do folhetim veio a calhar para a coluna, que recebeu e-mail de um homem de 35 anos, financeiramente livre, embora morando com os pais, que decidiu avisar para os seus que se assumiria homossexual. De picadinho. Primeiro para os irmãos. Depois para a mãe. Por fim, o pai. Sei lá para mais qual parente ou colega o rapaz precisou dar satisfações. Talvez um padre, um síndico, um chefe, um líder de partido.

É o drama, mais corriqueiro do que se imagina, de um homem maduro que tem medo da reação de uma senhora vivida, responsável por sua educação (ou não). Vamos fatiar a situação. O rapaz é, legalmente, maior de idade há 17 anos, mas a independência é relativa, já que morar com os pais lhe rouba 2/3 do discurso e/ou da "militância" defender sua identidade (ou não). De qualquer maneira, ele quer avisar a um indivíduo sobre a própria intimidade, ou seja, o mesmo que oferecer um gnu para um leão faminto (ou não).

Primeiramente, isso me faz lembrar de uma situação particular, quando um tio demonstrou que a curiosidade dele a respeito da sexualidade de meu primo atravessaria as paredes que separavam suas camas. Meu primo tinha seus 14 anos. Meu tio informando que ele precisaria "tirar o queijo". De onde vim, isso significa dizer que virgindade para um adolescente daquela idade seria motivo de chacota na vizinhança.

Lembrei-me, imediatamente, das tragédias de Sófocles (dramaturgo grego, que viveu entre 497 ou 496 a.C. e morreu em 406 ou 405 a.C.), e das cariocas de Nelson Rodrigues (1912-1980): o coro, os vizinhos, gente que espia a fechadura da porta alheia. Da época em que ouvi isso, recordo que o comum era fazer o "serviço sujo" com uma profissional do sexo. Também lembro de outro momento em especial, quando ele quis saber com quem meu primo tinha passado um fim de semana.

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Veja você como os pais, em delírio a respeito dos limites entre as relações parentais, acreditam que têm direito de sequestrar nossos dias livres, nossos segredos e, o mais grave, nossos silêncios. Meu primo não se sentiu obrigado a dizer nada, mas entrou na brincadeira. Diante da inquisição imprópria, perguntou ao pai se ele já tinha feito a mãe atingir o orgasmo como ela merecia. Nunca mais meu tio invadiu a privacidade do filho, nem ele a do mais maduro. Onde está escrito que pai ou mãe têm de saber como, quando, com quem, e se gozamos?

Se eu pudesse falar pessoalmente com esse jovem rapaz que mandou o e-mail, diria para ele sair da casa dos pais imediatamente, parar de falar com os outros (quaisquer outros) o que é desnecessário, e esquecer que precisa assumir algo para alguém, como se fosse crime ou se ele tivesse que dizer para a multidão como se posiciona na cama. Só o amor a si mesmo o salvará. Quanto aos pais dele, que se relacionem melhor entre si, e parem de olhar para a vida de qualquer pessoa, até daqueles seres que são resultado de um ato de amor. Pode ser que filhos precisem mais de acolhimento, e menos julgamento.

* João Luiz Vieira, 47, é jornalista, roteirista, letrista e educador sexual, ou sexólogo, como preferir. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas). É sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo.

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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