Sexo

João Luiz Vieira

ver colunas anteriores
Entre os sintomas dos afetados pelo "vírus" está a postagem de fotografias e publicação do que ninguém sente ou vê em redes sociais
Entre os sintomas dos afetados pelo "vírus" está a postagem de fotografias e publicação do que ninguém sente ou vê em redes sociaisFoto: Cortesia

Comecei a sentir os sintomas no fim deste ano, talvez porque é época de Natal. Foi um bem-estar estranho. Uma vontade de ouvir samba. De ligar para uns parentes da adolescência. Uma ideia de compartilhar fotos de amigos. De cumprimentar todos os transeuntes. De perdoar quem fez escolhas erradas. Procurei meu médico imediatamente. O diagnóstico saiu nesta semana: "Você está feliz". Pior notícia não poderia ter ouvido depois de meses produzindo a partir de lágrimas de sangue, que são ótimas para criativos. Não sei você, mas sempre tive medo de pegar esse vírus da felicidade. O que ouvia a respeito era que as pessoas tinham sintomas muito parecidos, todos assustadores:

1. Gargalhavam (veja bem, não riam, gargalhavam) sobre o nada;

2. Passavam horas ouvindo desabafos alheios, sem se importar com o vampirismo;

3. Dançavam e, pior, cantavam pelas ruas quando ouviam qualquer música alegre com predominância de vogais ou que pregavam autoestima, incluindo Anitta ou Pabllo Vittar;

4. Voltavam a falar com detratores, perdoavam todo mundo;

5. Achavam que tudo poderia ser pior, entregavam tudo para Deus, Jesus ou Oxalá, mesmo contra a minha tese que, infelizmente, sempre precisamos de um pai, já que somos filhos de um "descobridor" ausente (Pedro Álvares Cabral) que assediou nossa mãe (a índia);

6. Fotografavam e publicavam o que ninguém sentia ou via, em redes sociais, tipo momentos felizes, certamente o vírus agindo em grau máximo no cérebro do paciente.

Fiquei assombrado com o diagnóstico. De repente, passaria a ser assim? Um otimista ignorante, como a maioria dos amantes cegos. Felicidade é ser meio cego? Fiquei desesperado com a ideia de dormir bem, comer bem, ser diplomático e não sentir mais dores. O que eu vou fazer com minha melancolia produtiva? Seria relegado a um plano onde as informações ou uma certa tentativa de entender os arredores não me chegariam mais? Ficarei à mercê do que me diriam pra fazer?

Leia também:
Pais precisam saber com quem e como fazemos sexo?
As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas


Comecei a ter tiques graves. Fazia um rango besta, uma macarronada com as sobras da geladeira, e de repente postava no Instagram. Feliz, veja você. Gostava do meu corte de cabelo novo e jogava no Facebook para contar quantos "tá lindo" escreveriam. Se fosse menos de cinco, aí, sim, eu poderia resgatar minha melancolia. Só que não. Gostavam, como se enfatizassem meu estado calamitoso.

Perguntei ao meu psiquiatra se estava na hora de jogar meus antidepressivos na privada. Não quero entrar nessa zona estranha, onde cicatrizes levam quilos de pancake e nosso sorriso vale mais que nossa lágrima. A má notícia, para você que passou por um 2017 difícil, é que essa doença pode durar alguns meses. Mas, juro, juro mesmo, que pretendo voltar a ser cético e melancólico já na Quarta-Feira de Cinzas. A boa notícia: felicidade não é doença crônica. Também passa.

A propósito, tem vídeo novo no sexo_sem_medo. Sobre o quanto a Igreja interfere em nossas escolhas. Veja aqui.

*João Luiz Vieira, 48, é jornalista com passagens pela Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Veja, Época, Terra, Marie Claire, Quem Acontece, Top Magazine, Jornal do Commercio e Ig. Atua como educador sexual/sexólogo, é sócio do site Pau Pra Qualquer Obra e do canal no YouTube: Sexo Sem Medo.

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

veja também

comentários

comece o dia bem informado: