Sexo

João Luiz Vieira

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João Luiz Vieira, e-mail vieiraluizjoao@gmail.com
João Luiz Vieira, e-mail vieiraluizjoao@gmail.comFoto: Bianca Vasconcellos

Completo no dia 19 de novembro 49 anos em terra, o que significa o início do meio século, e isso me provocou, primeiramente, uma orgia numérica. Dos 49, 28 deles foram vividos na cidade do Recife, 20 em São Paulo, um em Belém, 34 foram usados como ator, 30 sendo jornalista/publicitário, 26 tentando ser dramaturgo, cinco atuando como educador sexual/sexólogo, quatro na labuta de roteirista de audiovisual, dois assumindo-me umbandista, e um redondo zero para experiências novas. Quatro e nove representam os números de minha primeira relação próxima com a morte: quando perdi meu primeiro mestre, meu pai, que não chegou ao meio século, e foi sem me dizer que estava indo.

As despedidas como se terremotos fossem são as que deixam frestas mais profundas n’alma porque sustos, explicam-nos que morte explica a vida. A régua que me sobrou dessa metade de século tem dois números: 4 e 9. O que ficou para trás, meu carinho sempre terá, porque se esteve comigo é que merecimento houve. Se não seguir adiante na estrada é porque, talvez, o assunto (qualquer um) foi concluído. Por morte explicar vida, a partir de hoje o dia é uma hora, a hora, um minuto, e um minuto troco pelo silêncio. Venha o que vier, passe o que tiver de passar, continuarei a contar comigo. Eu sigo minha alma, e isso me acolhe o suficiente.

Perto dos 50 anos, a gente vai, finalmente, se libertando dessa labiríntica teia de ilusões que inclui as teses de que não morreremos, somos insubstituíveis, temos importância, nossa pele não perderá viço, continuaremos a ser paquerados pela quantidade de indivíduos de antes, gozamos tão animadamente quanto coelhos. A segunda metade desse negócio que é viver é a fase do menos, do desapego material, do abraço no amigo que sobreviveu às mortes de familiares, colapsos financeiros, crises existenciais e profissionais, doenças emocionais e físicas, do “não” convicto e do perdão. Como é bom aceitar uma borracha alheia de quem um dia o magoou, se você ainda lembrar o motivo. Porque os anos também nos garantem a fuga das lembranças, a saideira da memória.

Não sei você, mas sinto nos ossos a dureza que é avançar 365 dias em um tempo onde se fala muito em “grey market”, mas pouco se age, efetivamente, a favor dos que ainda estão vivos há muito tempo. Certo dia, escrevi que o homem que eu sempre quis ser ou ter perto de mim apareceu no fim de uma noite de ressaca. Aos 49 ou 50 anos, tanto faz, a gente ganha prescrição de grau maior para as lentes dos óculos, o fígado, exausto de tanta festa, não se regenera tão rapidamente, os destilados já não são assim tão amigáveis, ficamos bêbados mais rapidamente, e falamos mais merdas porque desabafos são verdadeiramente doídos já que estradas. Um fato, aliás, é inescapável: dar de ombros para a avaliação enviesada do outro, especialmente de sua geração porque cicatrizes fortalecem a pele. A gente, enfim, faz amizade com nosso invisível, passamos em muitas provas de fogo, noves fora sobrou você, e eu, ou eu sem você.

Como disse, e ainda penso assim, vou me autoplagiar: quando chegamos aos 30 anos, precisamos da certeza que escolhemos a profissão certa, de amigos legítimos, de despejar o esperma (no caso dos machos) no lugar certo, de amar e de traduzir o que é amor, de um patrimônio, financeiro ou emocional, mínimo que seja. Precisamos já de um passado nítido. Queremos, enfim, pisar firme. Aos 40 anos é a hora de reciclar, triturar, excluir, mais até do que acrescentar. É o momento de dar um tempo nas buscas, de rever o que precisamos de fato. Do que preciso, do que não preciso, do que ainda é meu, do que é nada. Não chega a ser um outono, mas se pode dizer que é outro verão, mais ameno, que ainda queima, mas não tosta a pele. Até porque já sabemos que não vale a pena se queimar tanto por pouco. Queremos, enfim, sedimentar o que pisamos.

Cheguei, matematicamente, na metade da jornada. E agora? Aos 50, a sensação, difícil de explicar para quem está distante dessa fase, tem um que de bem-estar e conformação. Nada a ver com conforto ou apatia, veja bem. Ao contrário, há (ainda) desconforto e (muita) gana. Amadurecer, para mim, tem a ver com estar cada vez mais entre parênteses: o dito e o desdito, o falado e o pensado, o sim e o não-é-bem-assim. As dúvidas seguirão à frente, nos testando. As certezas, preguiçosas, ficarão grudadas em nossas costas, impedindo movimentos mais arriscados, incertos. Ser maduro é um paradoxo em si: você está no ponto para ser mastigado, mas não abre tantos apetites. Não da mesma forma de quando estava verde. Voltemos a falar quando (se) eu chegar aos 51 e possa, talvez, me desdizer.

P.S.: Pediram-me para eu escrever sobre o presente (como seduzir alguém em temporada de assédio, as vantagens de fazer sexo pela manhã sem mau hálito, o que fazer com um esperma vindo em sua direção) e o futuro (a solidão como um fato, os relacionamentos com a inteligência artificial), e decidi falar sobre morrer como justificativa do viver.

* João Luiz Vieira, 48, é jornalista, roteirista, letrista e educador sexual, ou sexólogo, como preferir. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas). É sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e tem um canal no YouTube: sexo_sem_medo.

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