Folha Gastronômica

Lectícia Cavalcanti

ver colunas anteriores
Famoso por grandes clássicos pictórios mundiais
Famoso por grandes clássicos pictórios mundiaisFoto: Da editoria de Arte

Semana passada, Salvator Mundi, quadro de Leonardo da Vinci, foi arrematado em leitão por 450, 3 milhões de dólares - o mais alto valor já pago por uma obra de arte. A pintura não é muito grande, apenas 45,4 cm por 65,6 cm. Trata-se do retrato de Jesus Cristo dando uma bênção com a mão direita, enquanto que a mão esquerda segura uma bola de cristal transparente.

Além desse, outros quadros são atribuídos ao mestre Leonardo - o Batismo de Cristo, a Anunciação, a Virgem de Granada, a Virgem das Rochas, a Última Ceia e, mais conhecido de todos, a Mona Lisa. Não foram muitos. O problema é que ele só tinha tempo para cuidar de suas telas e esculturas quando, por algum motivo, era suspenso de suas funções.

Por mais de 30 anos trabalhou para Ludovico Sforza, Il Moro, governador de Milão, como “Mestre de banquetes e Conselheiro de Fortificações”. Durante esse tempo, concebeu projetos muito à frente de seu tempo. Alguns ficaram apenas no papel - anotações, desenhos, diagramas. Mas serviram de inspiração, para inventos que acabaram mudando o rumo da ciência.

Entre eles: protótipo de asa delta, bobina automática, helicóptero, paraquedas, ponte giratória, robô, tanque de guerra. Também, equipamento para mergulho submarino e para caminhar sobre as águas.

Mas as invenções de Da Vinci não pararam por aí. Ludovico lhe encarregou de projetar a nova cozinha do seu palácio, no centro de Milão. E ele fez uma relação das principais necessidades para um espaço totalmente automatizado: “Em primeiro lugar, é necessário uma fonte de fogo constante.

Uma provisão constante de água fervendo. Depois, um chão que esteja sempre limpo. Também aparelhos para limpar, molhar, pelar e cortar. Ademais, um talento para apartar da cozinha tufos e fedores. E também música, pois os homens trabalham melhor e mais alegremente ali onde há música. E, por último, um talento para eliminar as rãs dos barris de beber água”. Começou então a criar máquinas complicadíssimas para suprir cada uma dessas necessidades.

Para o “fogo constante”, uma fita transportadora que levava os troncos para uma serra circular e, daí, para um assador automático alimentado por hélices que giravam. Para “uma provisão constante de água fervendo”, uma caldeira unida a canos metálicos aquecidos por carvão. Para “o chão sempre limpo”, um sistema de escovas giratórias movidas por bois com pás amarradas atrás, para recolher a sujeira reunida pelas escovas.

Para “pelar e cortar” as carnes, uma descomunal picadora, que precisava de homens e cavalos para funcionar. Para retirar da cozinha “fedores”, foles presos ao teto que trabalhavam com manivelas movidas por cavalo. Já para a “música”, criou uns tambores mecânicos com manivelas acompanhadas por três músicos que tocavam o que ele chamava de “órgão de beiços”.

E para “eliminar as rãs dos barris de beber água”, uma armadilha que acionava martelos que nocauteavam os ditos animais assim que pulassem nos barris. E, finalmente, um invento revolucionário - um alarme contra fogo que espalhava água pulverizada por toda a cozinha.

Sem contar que, para que tudo funcionasse, precisava de espaço em volta da cozinha. Para isso, teve que demolir parte do refeitório, dos estábulos e dos seis quartos ocupados pela mãe de Ludovico. No relatório mensal enviado à Signoria de Florença, Sabba da Castiglione di Pietro Alemanni (embaixador florentino na Corte dos Sforza), descreve a cena, depois de visitar a nova cozinha: “A cozinha de Mestre Leonardo é um manicômio.

O Senhor Ludovico contara-me que os esforços dos últimos meses tinham sido no sentido de se economizar trabalho humano, mas, agora, em lugar dos vinte cozinheiros que as cozinhas costumavam ter, há umas duas centenas de pessoas afatigando-se, e nenhuma das que pude ver estava propriamente a cozinhar, mas antes ocupada com os grandes engenhos que enchem o chão e as paredes”.

Leonardo foi então, mais uma vez, suspenso de suas funções. Quando isso acontecia, aproveitava o tempo livre para pintar. E, por mais que tenha sido um gênio de muitas invenções, passou à história como pintor de quadros famosos.

P.S. Continua no próximo sábado.

 *É especialista em Gastronomia e escreve toda semana neste espaço 

veja também

comentários

comece o dia bem informado: