Folha Gastronômica

Lectícia Cavalcanti

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Os primeiros escravos chegaram a Portugal em 1441
Os primeiros escravos chegaram a Portugal em 1441Foto: Da editoria de Arte

A Portugal, os primeiros escravos chegaram por volta de 1441. Capturados por Antão Gonçalves e Nuno Tristão, na região do rio do Ouro e na Ilha de Arguim, logo foram postos a serviço do Infante D. Henrique. Para trabalho doméstico ou na lavoura - em Açores, Cabo Verde, Ilha da Madeira, São Tomé.

Aos poucos, foram sendo empregados em todo tipo de serviço, segundo a vontade de seus donos. E chegaram tantos, a Lisboa, que Nicolau Clenardo (1493-1542), um humanista flamengo convidado por D. João III para ensinar em Évora, escreveu: “Os escravos pululam por toda parte. Tanto que, quero crer, são em maior número que os portugueses de condição livre” (em Épocas de Portugal Econômico, de João Lucio de Azevedo).

Mas esse comércio, no início português, logo foi ameaçado por ingleses, holandeses e espanhóis. Com “asientos” (contratos de monopólio comercial), Filipe II de Espanha (I de Portugal) concedia a determinados súditos o direito exclusivo de fornecer negros às possessões de ultramar. Muitos levados para Hispaniola (atual República Dominicana e Haiti), a partir de 1501; e em sequência, para outras áreas da América espanhola.

A presença do negro representou sempre fator obrigatório no desenvolvimento dos latifúndios coloniais”, segundo Sérgio Buarque de Holanda (em Raízes do Brasil).
Nos escuros e mal ventilados porões dos navios tumbeiros, permaneciam acorrentados como carga de segunda categoria.

Faziam suas necessidades e, no mesmo lugar, se alimentavam das sobras dos marinheiros - “feijon, farinha de sorgo e um peixe estranho chamado nóxio”, segundo Robert Edgard Conrad (em Os últimos anos da escravatura no Brasil). Para beber, bem pouca água; e aguardente, vez por outra. Juntos ficavam “vivos, moribundos e mortos amontoados numa única massa.

Alguns desafortunados no mais lamentável estado de varíola, doentes com oftalmia, alguns completamente cegos; outros, esqueletos vivos, arrastando-se com dificuldade, incapazes de suportar o peso de seus corpos miseráveis. Mães com crianças pequenas penduradas em seus peitos, incapazes de dar a elas uma gota de alimento...

No compartimento inferior o mau cheiro era insuportável. Parecia inacreditável que seres humanos sobrevivessem naquela atmosfera” - assim descreveu, em seu diário de bordo, o capitão do navio inglês Fawn, que interceptou um desses tumbeiros - o Dois de Fevereiro.

O excesso de carga se dava por serem certas as perdas causadas pelas mortes em viagem. Quando assim se dava, os corpos eram jogados ao mar. Sem que suas almas fossem encomendadas aos deuses inclementes.

Esses navios acabavam sendo “verdadeiros túmulos de pobres negros” - assim se referia a eles um relatório apócrifo redigido no Recife, em 12 de junho de 1643, endereçado ao Conselho dos 19 da Companhia das Índias Ocidentais. Durante todo o período de dominação holandesa (1630-1654), essa companhia exerceu o monopólio sobre a importação de negros da costa da África. Apenas um, em cada cinco, chegava inteiro a seu destino.

Dos 554 embarcados no navio De Regenboge, morreram 172; no Bruynys eram 350, e morreram 109 - tudo segundo o historiador José Antônio Gonsalves de Mello (em A economia açucareira). Dom Pedro II (de Portugal, claro, que o nosso nem rei foi), em 1684, tentou regulamentar o transporte desses escravos evitando “a violência de os trazerem tão apertados e unidos uns contra os outros”. Mais preocupado estava ele em diminuir a mortandade e aumentar os seus lucros.

E não rendia pouco, esse comércio. Eram comprados, esses negros, por valor que variava de 12 a 75 florins (na Guiné) ou de 38 a 55 (em Angola). Os fortes e sadios eram aqui revendidos por até 800 florins. Chegar vivo, para essa gente, tinha gosto de vitória.

“Celebravam por meio de cantos e palmas a sua entrada no porto, contando esperar em terra um tratamento menos rigoroso do que aquele que experimentaram na viagem”, segundo Pereira da Costa (em Folk-lore pernambucano). Mas, com a vida que lhes esperava, sobreviveriam em média por apenas mais sete sofridos anos.

(Continua no próximo sábado)

*É especialista em Gastronomia e escreve semanalmente neste espaço


 

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