Cena da série 'Maniac', com Emma Stone e Jonah Hill
Cena da série 'Maniac', com Emma Stone e Jonah HillFoto: Divulgação

É uma curiosa mistura de gêneros e texturas a nova série da Netflix, "Maniac", que entra no catálogo da plataforma no dia 21 de setembro. O enredo sugere um drama de alta intensidade, na forma de personagens fragilizados por traumas diversos, mas há também um peculiar investimento em humor e ficção científica, farsa e sátira da vida contemporânea, elementos que tornam essa série empolgante de um jeito único. Dirigida por Cary Joji Fukunaga, responsável pelo ótimo "Beasts of No Nation", a primeira temporada tem 10 episódios de 40 minutos.

No enredo, Owen (Jonah Hill) sofre distúrbios, vê pessoas que não estão lá, sua mente cria instantes de delírio como mecanismo para lidar com seus traumas. Ele acredita que o universo, em sua aparente casualidade, é composto por padrões que secretamente indicam o caminho para se tornar uma espécie de herói. Após ser demitido, e depois de recusar ajuda financeira de seus pais, Owen aceita ser cobaia de uma nova droga experimental, que tem como objetivo mapear as funções do cérebro e depois neutralizar todas as dores dos pacientes.

Annie (Emma Stone) é viciada em uma droga e, para obter novas pílulas, consegue uma vaga nesse mesmo programa que Owen participa. Annie possui lembranças traumáticas em relação a sua mãe e irmã, feridas que são reveladas aos poucos e de um jeito interessante. A descoberta do que leva Annie a essa droga é um exemplo de como esse roteiro consegue surpreender mesmo dentro de temas clichês, o vício, o luto. É um dos méritos da série: mesmo recorrendo a situações comuns, há espaço para a surpresa, para o espanto.

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O encontro dos dois é o centro da série: a maneira como essa relação se expande durante os testes dessa droga faz o roteiro avançar de forma imprevisível e às vezes truncada, hermética. O médico James (Justin Theroux) é o idealizador desse tratamento, e seu trabalho também é guiado como forma de lidar com seus problemas íntimos, parte talvez mais caricata da série. O exame é composto por três partes, o uso de três drogas diferentes, A, B e C. Cada uma tem uma função e coloca o paciente em contato com lembranças dolorosas e desejos secretos.

Durante o efeito da droga, Owen e Annie protagonizam diversas pequenas histórias, eventos que embora não sejam reais revelam os sentimentos de cada um. Dessa forma, "Maniac" recorre à ação, ao suspense, à farsa, mas de um jeito criativo e ao mesmo conectado ao desenvolvimento dos personagens. Ao testar a segunda droga, Annie se torna uma ladra, o que representa, no mundo real, uma descoberta potente sobre sua vida pessoal. É talvez o ponto alto da série: sugerir a essência de seus personagens através da encenação alegórica de suas dores.

O bom trabalho de Jonah Hill e Emma Stone, que ao protagonizar não apenas o enredo principal como também essas sequências curtas, é enfatizado por um fascinante trabalho de figurino e arte. "Maniac" se passa no período atual, mas a tecnologia dessa época é diferente, com aparelhos cafonas, botões e barulhos excêntricos. É uma cultura retrô e nostálgica, vagamente familiar, que cria um ambiente excêntrico ideal para a estranheza que a série provoca.

A complexidade da mente humana é representada em "Maniac" em uma narrativa que parece emular labirintos e espelhos, desdobrando-se em diferentes caminhos de interpretação. É uma sequência de momentos empolgantes, em que a ação é voltada para avaliar personagens e momentos divergentes da sociedade atual, mas também nos moldes de um exercício intelectual às vezes difícil de decifrar.

Cotação: bom


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