Uma Série de Coisas

Fernando Martins

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Gilmore Girls
Gilmore GirlsFoto: Divulgação/Netflix

O Dia das Mães é comemorado no mês de maio e, como na maioria das datas comemorativas, é tempo de reflexão. Analisar a reprodução da família na mídia e perceber que ela retratou apenas uma parte da realidade incomoda. Entre os anos 50 e 70, o cenário social feminino passava por várias mudanças e tentava afastar-se do patriarcado profundamente arraigado desde o início dos tempos. Apesar disso, as principais séries que surgiam continuavam a narrar histórias padronizadas: um pai que sai para trabalhar e uma mãe unicamente responsável pela casa e seus filhos.

Lançando luz sobre o fato de que mulheres, em geral, nem sempre estiveram nos holofotes da televisão e do cinema, percebe-se que a ausência delas é uma consequência do domínio dos homens não apenas nas histórias, mas na realidade dos bastidores. Diretores, produtores e escritores criavam tramas onde os heróis – assim como eles – tinham sucesso, enquanto eram assistidos por suas esposas.

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Fazendo um recorte de algumas produções com esse retrato temos a primeira versão de ‘A Família Adams’ (1964-1966), série que reúne personagens bizarros no dia a dia de uma casa mal assombrada; Décadas depois e sem o tom sombrio, a ‘Família Soprano’ (1999-2007) chega com a mesma tradição, acompanhando os dramas do mafioso Tony Soprano (James Gandolfini) depois de um ataque de pânico.

Nos dois exemplos, vemos mães diferentes no estilo, mas caseiras, cuidando do bem-estar do marido. No Brasil, embora isso se repita na antiga ‘A Grande Família’ (1972-1975), começam a vir histórias como a de ‘Malu Mulher’ (1979-1980) narrando a superação da personagem principal após o divorcio e sua independência financeira na criação da filha.

Fora do Brasil, a partir das décadas de 80 e 90, começa o processo de ruptura dos antigos formatos patriarcais e da representação da diversidade de gênero. Mulheres como Barbara Hall (‘Homeland’) e Shonda Rhimes (‘Grey’s Anatomy’) começaram a ocupar lugar no mercado de trabalho escrevendo seus próprios shows, dando voz e poder para personagens feministas.

Uma das primeiras séries nesse estilo é ‘Weeds’ (2005-2012), estrelando Mary-Louise Parker como uma dona de casa tentando criar seus filhos após a morte de seu marido. Um pouco antes, o padrão da família perfeita havia começado a ser desconstruído com séries como ‘A Sete Palmos’ (2001-2005), com a personagem Ruth Fisher (da atriz Frances Conroy) liderando a família - e Michael C. Hall (‘Dexter’) interpretando um personagem homossexual. Mais tarde, ‘The Fosters’ (2013-2018) com duas mulheres casadas criando filhos adotivos.

Sexo nada frágil 
Hoje, com maior inclusão e empoderamento, mães de várias classes sociais, mocinhas ou vilãs, tomam conta da televisão mostrando que não precisam gostar de cozinhar ou abrir mão da sua sexualidade, que o trabalho fora ou dentro de casa não tira crédito algum, que podem e devem ir atrás de seus sonhos, sem abrir mão de si mesmas.

Veja algumas produções com personagens femininas marcantes:

Gilmore Girls (2000-2007) – Lorelai
A maternidade de Lorelai (atriz Lauren Graham) começou quando era adolescente e solteira. Por não se identificar com a vida que seus pais planejaram para ela, se tornou independente muito cedo. Com ajuda de outras mulheres e ausência de uma figura masculina, construiu um lar e criou sua filha sozinha. Após 10 anos do fim da série, o serviço de streaming Netflix produziu uma continuação de quatro episódios com os personagens mais velhos e amadurecidos, intitulado de ‘Gilmore Girls – A Year in the Life’.



Bates Motel (2013-2017) – Norma Bates

A personagem é conhecida desde o longa ‘Psicose’ (1950). A série é uma releitura contemporânea da história criada por Hitchcook e relata o relacionamento entre mãe e filho dos Bates. Interpretada por Vera Farmiga, Norma é uma mãe que não mede esforços para proteger o filho de ameaças externas e internas, porém, seu amor imensurável pelo caçula acaba tapando seus olhos para o real problema – a doença de Norman.



Game Of Thrones (2011-presente) - Daenerys Targaryen
Quem disse que donas de bichinhos não são mães também? No caso da personagem de Emilia Clarke, os ‘bichinhos’ não são tão ‘inhos’ assim. Conhecida como Mother of Dragons, a herdeira dos Targaryen ganha três ovos de dragões no início da história de ‘Game Of Thrones’, se tornando mãe de três feras poderosas. Cersei Lannister e Catelyn Stark são outros exemplos de mulheres que prezam por suas famílias. 



Stranger Things (2016-presente) - Joyce Byers
Existe uma diversidade de mães na série Stranger Things, mas nenhuma é tão corajosa e determinada como a personagem de Winona Rider. Ela não tem muita escolha, no início da história seu filho desaparece e forças sobrenaturais começam a tomar conta da cidade. Joyce se junta com o xerife da cidade e os amigos de seu caçula em busca de respostas.



Revenge (2011-2015) – Victoria Grayson
Uma das vilãs mais marcantes da TV americana, Victoria está inserida em uma sociedade rica e poderosa. Dissimulada, traiçoeira e elegante, ela enfrenta suas batalhas com classe. Quando uma jovem se muda para a casa ao lado com um passado desconhecido e uma sede de vingança, Grayson tenta defender seu filho da influência da visitante.



Grace and Frankie (2015-presente) – Grace e Frankie
Muitas pessoas desejam ter Grace e Frankie como mães ou avós, isso não dá pra negar. As duas formam uma dupla improvável depois que seus maridos decidem assumir a homossexualidade e revelarem que são um casal, além de pedir o divórcio. A partir dai, as duas passam a morar juntas na mesma casa e a conviver com suas – muitas – diferenças. As senhoras de 70 anos possuem filhos e também são vovós. Apesar de não ser o tema central da série, o público pode acompanhar a relação entre elas e suas famílias de forma divertida e leve.



The Fosters (2013-2018) – Lena e Stef
A série narra a história de uma das famílias com maior representatividade da TV. A começar pelas mães, no plural. Lena (Sherri Saum), uma professora negra de um colégio do subúrbio, é casada com Stef (Teri Polo), uma policial que trabalha com seu ex-marido. Ambas criam diversos filhos adotivos, como um casal de gêmeos latinos e um garoto pré-adolescente descobrindo sua homossexualidade. Com esse leque de personagens, ‘The Fosters’ traz muitos ensinamentos sobre amor, respeito e confiança.

Atenção: todas as séries acima podem ser vistas pela Netflix, com exceção de ‘Game Of Thrones’, que pode ser vista pela HBO GO. 

*Fernando começou a assistir a séries de TV e streaming em 2009 e nunca mais parou. Atualmente ele acompanha mais de 180 produções e já assistiu mais de 5,3 mil episódios, uma média de 23 por semana. A série mais assistida - a favorita - é "Grey's Anatomy", à qual ele reassiste com qualquer pessoa que esteja disposta a começar uma maratona.

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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