Vida Saudável

Ney Cavalcanti e Solange Paraíso

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As tradições culinárias de um lugar dizem muito sobre ele
As tradições culinárias de um lugar dizem muito sobre eleFoto: Da editoria de Arte

É com muito gosto que me ponho a observar hábitos e comportamentos alimentares, quando visito lugares com outras culturas. Foi o caso, em dias recentes, lá pras bandas de Arcoverde, Pesqueira e Belo Jardim, em viagem de trabalho. Tudo muito corrido, hospedagem simples, nenhum luxo e muito a admirar.

Começando pelas refeições nos hotéis, com direito a coalhada e munguzá no café da manhã, e queijo coalho “do legítimo”. Numa das ceias, depois de ter me fartado com um cará acompanhado de um bom guisado de carne de boi e uma xícara de leite com café, cresci o olho para um pãozinho francês, daqueles que são assados abertos, untados de manteiga e esbanjando crocância. Ai, meu Deus, que sedução!

Em outra vez, quando pedi um ovo frito, respondi um “sim” mecânico à pergunta “é inteiro”? Aí me regozijei com um ovo estrelado na manteiga, no formato sem quebrar a gema. Amei, sobretudo pela surpresa. Estava acostumada com os ovos mexidos cremosos, servidos naquelas cubas aquecidas que existem nos hotéis de rede, Brasil afora - gostosos, sem dúvida - mas meio sem personalidade.

No almoço, por mais de uma vez esbaldei-me em um balcão self service, à nordestina: carne de bode guisada, lado a lado com um surubim ao molho, convivendo, ambos, com a oferta de uma lasanha de frango e uma salada à Caesar, adaptada, às quais não dei a mínima atenção.

Abacaxi à moda de churrasco, assado na brasa e cortado em fatias fininhas meladas de canela também estava lá, num delicado equilíbrio das comidas pesadas, apaziguando a consciência de quem já estava “lotada”.

Para a janta (ou ceia), era outro desfile de gostosuras: sopa de carne e canja de galinha fumegantes, engrossadas, literalmente, com bastante macarrão e arroz, deixariam de cabelo em pé os recém-aficionados do padrão low carb, quanto mais sendo acompanhadas de torradas crocantes, servidas em porções à vontade, devidamente besuntadas de manteiga.

Para o bloco dos que gostam de comida pesada, era possível comer nesta mesma refeição cuscuz, inhame, macaxeira, carnes assadas e guisadas, churrasco de tudo, linguiças pingando gordura, feijão verde, feijão preto, etc., capazes de sabotar qualquer ínfimo desejo de “fazer dieta”.

E a hospitalidade nordestina, é claro, oferecendo: “pode comer à vontade, mostre que está gostando”! Chega dá pena, pensar que estas raízes tão autênticas correm o risco de se perder para sempre, vencidas pelo famigerado estilo fast food. Por falar em “fast”, o jeito nordestino de comer não combina com pressa.

É pra degustar com olhos e olfato, bem antes do paladar; sem falar o quanto essas comidas remetem às emoções e lembranças de um tempo de fartura ou escassez, de cozinha artesanal com um bom fogão de lenha a crepitar e encher todos os espaços com o cheiro característico...

De qualquer maneira, apreciei estar ali e ouvir de nossos colegas dos fóruns, que muitos deles ainda preservam a rotina de almoçar em casa, de usufruir da companhia dos familiares e de valorizarem as confraternizações ao redor de uma mesa farta em casas ou sítios, ao invés dos ambientes comerciais dos restaurantes.

É certo que não abrem mão das praticidades da vida moderna, contudo, pras bandas de lá o tempo passa mais lento e tem o gostinho de aproveitar o agora, mais do que a gente daqui!..

*É nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo do Programa Saúde Legal

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