Vida Saudável

Ney Cavalcanti e Solange Paraíso

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Data traz reflexões sobre a forma como nos alimentamos
Data traz reflexões sobre a forma como nos alimentamosFoto: Da editoria de Arte

Em 16 de outubro de 1946 foi criada a FAO, entidade da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Eram dias difíceis do pós-guerra e o mundo precisava de estratégias políticas, governamentais e sociais para resgatar a vida das populações espoliadas pela fome e por outras mazelas advindas dessa contingência.

Por associação, e pela pertinência da iniciativa, foi instituída em cada 16 de outubro a comemoração do Dia Mundial da Alimentação.

Alimentação e Nutrição andam de mãos dadas, mas as palavras que as designam não são definidas como sinônimos. Alimentar-se é um ato de profunda conexão com o ambiente, as raízes culturais, a família, os amigos e demais grupos de convívio, as emoções, e até mesmo com as leis de mercado.

Vai além do óbvio relacionado à dimensão biológica, que consiste, por assim dizer, nos processos ligados à digestão, à absorção de nutrientes, à excreção dos resíduos, à formação dos tecidos, à “construção” das defesas frente aos agentes causadores de doenças, à produção de energia, etc.

A ciência da Nutrição se coloca, por meio de seus postulados, a serviço das nossas necessidades de sobrevivência, crescimento e desenvolvimento. Fundamenta-se no estudo da biologia humana e das peculiaridades mais intrínsecas dos alimentos - sobretudo seu valor nutritivo, diretamente ligado ao suprimento das demandas do organismo nas diversas etapas do seu ciclo vital e de estados como gestação, lactação, doenças infecciosas, degenerativas, etc.

Considerando a natureza essencialmente social do ser humano - a qual transcende à definição tecnicista de ser vivo que nasce, cresce, se movimenta, se desenvolve, se reproduz e morre - há que se refletir sobre a diferença entre alimento e comida.

Alimento diz respeito àquilo que veicula os nutrientes e energia suficientes para o funcionamento orgânico. Comida tem significado social e cultural, que leva em conta como, por que, com quem, onde e quando, ou seja, envolve aspectos complexos dos sistemas alimentares e seus respectivos códigos.

É justo pinçarmos aqui a citação de Roberto DaMatta, em 1986: "comida não é apenas uma substância alimentar mas é também um modo, um estilo e um jeito de alimentar-se. E o jeito de comer define não só aquilo que é ingerido, como também aquele que o ingere".

Nos dias atuais, em que imperam os modismos na alimentação, e diante de tanto desenvolvimento da ciência em seus paradigmas ampliados, é importante que se estenda o olhar também ao modo como as pessoas e as comunidades têm conduzido suas escolhas.

A influência dos meios de propaganda para induzir o consumo desenfreado de alimentos com saudabilidade duvidosa, a pressão social acerca dos corpos de beleza estereotipada em padrões ilusórios, o frenesi para alcançar aprovação social sem a devida crítica, as desigualdades sociais, etc., são fatores que contribuem, antes, para o adoecimento, do que para a saúde.

Lancemos o foco sobre para quem e porquê utilizaremos nossa massa crítica no exercício profissional, aprofundando as reflexões nesta semana do Dia Mundial da Alimentação: estamos aptos o suficiente para vencer os desafios da sociedade atual?

Saberemos dizer não à tentação de prescrever dietas restritivas, sob risco de adoecer mais ainda as pessoas que buscam emagrecer imediatamente? Ou mergulharemos no estudo do comportamento humano para saber lidar com tudo isso?...

*É nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo de Programa Saúde Legal

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