Vida Saudável

Ney Cavalcanti e Solange Paraíso

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Sal, gordura e açúcar transformam o sabor dos alimentos
Sal, gordura e açúcar transformam o sabor dos alimentosFoto: Da editoria de Arte

Desde 2007 o governo brasileiro vem estabelecendo - por meio do Ministério da Saúde - uma sensibilização com diversos setores da indústria, para a redução gradativa das quantidades de açúcar, gorduras e sódio adicionadas na formulação dos alimentos processados.

Vale dizer que tal iniciativa se constitui um esforço enorme, posto que os interesses comerciais divergem muito do que importa à população, aos estudiosos, bem como aos outros técnicos e gestores dos órgãos responsáveis pela saúde pública no país.

Este movimento não vem por acaso; no mundo inteiro os paradigmas científicos atuais apontam para fortes correlações entre o estilo de vida e a prevalência dos agravos à saúde, tais como: obesidade, diabetes, hipertensão arterial, doença do coração relacionada à obstrução de artérias, e alguns tipos de câncer.

Dentre os componentes desse estilo de vida, os mais importantes são o hábito alimentar, o tabagismo, o sedentarismo, o alcoolismo, o gerenciamento do estresse, etc. Em poucas décadas a população brasileira mudou significativamente o padrão alimentar. A industrialização dos alimentos foi um fator decisivo para esta mudança, pois traz como principais benefícios a praticidade na estocagem e na utilização de um sem número de produtos, colocados sob comercialização mediante estratégias de marketing e publicidade que seduzem todos os tipos de consumidores.

Esta sedução, não por acaso, tem como outro grande chamariz o apelo de sabor: não basta ser prático de obter e de preparar, se o alimento não satisfizer pelo paladar e pelos outros quesitos que nós, os técnicos, denominamos propriedades organolépticas (sabor, aroma, textura e aparência).

Pois bem, o sal, o açúcar e a gordura - coadjuvantes que seriam definidos, a priori, como meros temperos, tornaram-se (quase) a base para a indústria alimentícia conquistar os consumidores. Além do sabor, esses ingredientes ainda conferem outros valores agregados (como a crocância, por exemplo, no caso das gorduras).

Destas múltiplas vantagens, a indústria usou e abusou. E uma grande parcela da população, à qual ainda faltam os critérios de moderação e bom senso, e o correlato empoderamento e assertividade, embarcou num padrão de consumo desenfreado de calorias vazias, levando a riscos de adoecimento cada vez maiores, sobretudo por causa do sedentarismo, também.

Voltando à questão dos pactos, somente na última segunda-feira, dia 26 de novembro de 2018, foi assinado o primeiro acordo para a redução do teor de açúcar nos alimentos industrializados como iogurtes, achocolatados, sucos em caixinha, refrigerantes, bolos e biscoitos.

Tal redução será gradativa, pelo menos até o ano de 2022, com reavaliações a cada dois anos pela ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mesmo com critérios técnicos balizados nas informações de especialistas, há quem critique as metas de redução estipuladas, tidas como irrisórias, diante dos percentuais de açúcar adicionado pela indústria atualmente.

Em todo caso, tais metas, se cumpridas, já sinalizam algum regramento num setor que é notadamente conhecido como gerenciador de seus próprios interesses - o de vender (colocado, sempre, acima de qualquer outro, haja vista a peleja que tem sido concluir as mudanças na sinalização das informações nutricionais nos rótulos dos alimentos).

Concluímos com uma alerta: mesmo que a indústria reduza o teor de açúcar nos produtos, a parcela de responsabilidade com a saúde continua, por parte dos indivíduos e famílias!

*É nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo Saúde Legal

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