Diplomacia Econômica

Rainier Michael

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Rainier Michael, Cônsul da Eslovênia
Rainier Michael, Cônsul da EslovêniaFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

No Afeganistão, os talibãs detonam estátuas milenares de Buda. No Brasil, nós deixamos, simplesmente, que a história se deteriore.

“Apagar o passado é um instrumento de poder”. Phillipp Lichterbeck - DW

Três personagens que não se conheciam e moravam em cidades distintas (Paris, Berlin/Potsdam e São Paulo) descendiam de uma mesma família com raízes de mais de 650 anos na Saxônia, Alemanha. No ano de 2006, finalmente, esses três se encontraram, em Bautzen, cidade onde toda a história familiar teve início.

Quando chegaram em Bautzen, constataram que, mesmo a cidade, após cerca de 1000 anos repletos de episódios traumáticos e de grande ruptura como a Reforma Protestante, “Guerra dos 30 anos”, ” Invasão Napoleônica”, “Primeira e Segunda Guerra Mundial”, nada se comparava à destruição causada pelo domínio soviético, no período de 7 de outubro de 1949 até a sua dissolução em 3 de outubro de 1990.

Visitando o Museu e o Arquivo da cidade, com intuito de realizar um levantamento dos arquivos e bens poupados desse período de ocupação, logo foi verificado que o quadro de um dos antepassados tinha sido utilizado pelo exército vermelho como mira de tiro e para o treino com baionetas.

E assim, sucessivamente, verificaram que todos os objetos de valor que pertenciam a Fundação, com um legado de mais de 350 anos, iniciada por este antepassado, foram derretidos, vendidos ou levados para Moscou, antes da queda do muro.

Documentos históricos que foram guardados cuidadosamente durante a segunda guerra, muitos deles em caixas de sapato, foram poupados por não despertarem nenhum interesse ou terem algum valor financeiro para o regime instalado após a guerra.

Esse é um breve resumo do que aconteceu com a história da minha família e sua fundação: a Fundação Gregorius Mättig, que agora tem se revitalizado com a preservação dos muitos documentos que restaram. Para todos que valorizam a história, difícil não lamentar a destruição do Museu Nacional no Rio de Janeiro. Um fantástico acervo acumulado há 200 anos, transformado em cinzas devido ao descaso daqueles que deveriam ser mantenedores e fiéis depositários desse patrimônio brasileiro e mundial.

A extinção da memória (cultura, religião, patrimônio histórico material e imaterial) tem sido um poderoso instrumento para perpetuar ou instalar um novo regime ou ideologia.

“A falta de prestígio da História é histórica no Brasil”. Mary Del Priore

Vejam a manchete da BBC em seu site em português: “Museu Nacional: Em 10 anos, fogo dizima ao menos 8 prédios com tesouros culturais e científicos do país”

“LUIZA sobreviveu 13 milênios na natureza, mas não sobreviveu meio século na mão de um governo”. Cartaz levantado na frente do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Apenas 520 mil reais por ano teriam sido necessários para salvar tudo. A soma equivale:

- à 0,04% do custo da reforma do Maracanã;
- ao custo de um juiz federal por ano;
- ao custo da troca de carpete do Senado.

As comparações não param por aqui!

Mas o prejuízo cultural para o povo brasileiro... esse é incomparável.

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