Vamos Viajar

Priscilla Aguiar

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O muro dos “Eu te amo” ou “Le mur des je t'aime”, um muro em Paris, na França, com diversos jeitos de se falar eu te amo ao redor do mundo
O muro dos “Eu te amo” ou “Le mur des je t'aime”, um muro em Paris, na França, com diversos jeitos de se falar eu te amo ao redor do mundoFoto: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

Estava conversando com uma amiga tão viajante quanto eu e concordamos em um ponto bem específico. Quando estamos viajando sozinhas, as pessoas que encontramos e que permanecem ao nosso lado por um período se tornam muito importantes. Para quem, além de viajando sozinha está solteira, como no nosso caso, isso pode render grandes amigos, mas também amores e desamores com uma intensidade digna do cinema hollywoodiano

Dividimos algumas dessas histórias típicas de comédias românticas, de quando deixamos os nossos corações parados, batendo em uma mesma estação por um tempo. Mas para viver histórias assim é preciso, antes de tudo, se permitir. Inspirada nas conversas com a minha "travelmate (companheira de viagens)", decidi que a coluna desta semana não teria dicas de destinos, mas relatos de encontros e desencontros da minha primeira jornada pela Europa, em 2015. 

Espero que sirva de inspiração, especialmente para mulheres. Quando você toma as rédeas da sua vida e faz o que quer ao invés do que esperam que você faça, tudo fica melhor e mais leve. Agora vamos aos "quase amores" da minha primeira Eurotrip.

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Um arquiteto alemão que namorava a minha amiga ajudou na escolha dos destinos: Frankfurt (Alemanha), Barcelona (Espanha), Roma (Itália), Budapeste (Hungria), Viena (Áustria), Berlim (Alemanha), Amsterdam (Holanda) e Paris (França). Foram oito cidades, sete países e seis "quase amores" em 30 dias incríveis de autoconhecimento.

Pela primeira vez em muito tempo, o meu coração estava completamente livre, pleno, sem nenhum desamor. Foi o amor por mim mesma que me fez embarcar nessa viagem, algumas horas solitária e em outras rodeada de gente. Mas, parafraseando Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados (1982), quem não procura acha.

Estava bem distraída e não esperando absolutamente nada quando J. apareceu. Catalão pró-separatismo, professor, olhos azuis, barba e bom moço, me encontrou perdida com uma mochila de 80 litros nas costas à procura do hostel, no Bairro Gótico, em Barcelona. Depois de ajudar a encontrar o local onde eu ficaria hospedada, disse que na vida a gente deveria aproveitar os acasos e oportunidades. Então pediu o meu telefone.

Mal cheguei e já tinha um "date" marcado. Rodei o dia inteiro e, no caminho para o hostel, quem encontro ao virar a esquina? Parece roteiro de comédia romântica, mas não se iludam. Costumam ser assim as minhas curtas, divertidas e algumas vezes dolorosas histórias de amor. Talvez ainda conte uma ou outra por aqui, já que elas costumam estar ligadas às minhas viagens.

J. me apresentou cervejas espanholas, restaurantes, boates e me fez andar até não aguentar mais pelas ruas de Barcelona. Das cervejas que tomamos, gostei mais da Voll-Damm, uma do tipo Marzënbier elaborada utilizando o dobro de malte na receita (o teor alcoólico é alto, uns 7,2), mas a Moritz é bem mais barata e bem ok. 

Na noite mais legal, jantamos no La bodegueta. Ele disse que eu precisava provar esqueixada (tradicional prato catalão que é feito com uma salada de bacalhau desfiado, tomate, cebola, azeite e vinagre) e escalivada (um prato de vegetais grelhados defumados tradicional da Catalunha, Valência, Múrcia e Aragão). 

Até que um dia acordei desesperada de um pesadelo em que ele avisava ao amigo que a gente iria casar. Definitivamente não era ele. Como o universo seguia ao meu favor, no mesmo dia ele foi para a cidade dos pais e não nos encontramos novamente.

Cerveja em Barcelona

Algum tempo depois, soube que A., músico de Castelldefels que fala tudo que vem na cabeça, estava chegando. Não sabemos exatamente como, anos antes disso, surgimos no Facebook um do outro. A cidade em que ele mora fica distante 25 minutos de Barcelona e ele tinha que voltar antes das 21h, mas ficamos juntos tempo suficiente para que eu entendesse que, pessoalmente, nossas conversas em portunhol ou inglês eram ainda mais divertidas. 

Vocalista de banda de rock, com cabelo castanho, olhos azuis e barba. ele usava uma camisa do Linkin Park que eu já tinha visto mil vezes em fotos e trouxe descanso, riso frouxo e leveza para o meu último dia na Espanha. Marcamos em uma das praças do Bairro Gótico. Mas o trem para Castelldefels não esperava e precisamos dizer adeus depois de uma longa despedida na estação Jaume I.

Segui para Roma, na Itália, achando que talvez fosse ele. Na cidade eterna, me apaixonei pelo sotaque italiano, pela comida e, principalmente, pela minha própria companhia. Passava o dia inteiro explorando sozinha as maravilhas históricas e gastronômicas. Chegava super cansada no hostel, jantava tomando o vinho da casa e dormia falando com A. Nem era verão, mas ainda aproveitei a piscina do Camping Tiber Rome, onde fiquei hospedada em uma cabana só minha.

Budapeste era o destino seguinte. Apesar da fama festiva, tudo o que eu queria ao chegar lá era aproveitar as famosas termas e foi exatamente o que fiz. Cheguei bem tranquila e descansada a Viena, na Áustria, onde fui recebida pelo austríaco gentil que ficou meu amigo no passeio de três dias no Salar de Uyuni, na Bolivia.

W. é advogado, mochileiro, com olhos esverdeados, um pouco calvo e não tem tanto a ver com o meu estilo físico, mas muito com o meu jeito de pensar e lidar com a vida e com as pessoas. A cada dia em Viena me sentia mais próxima dele e confusa sobre a nossa amizade. Nada aconteceu, mas deixei a Áustria com os olhos cheios de lágrimas e uma sensação de que o tempo ali foi insuficiente.

Cheguei ainda um pouco triste a Berlim, na Alemanha, e passei os primeiros dias pensando e falando com ele (W.). Depois segui os conselhos do meu amigo alemão e decidi que deveria seguir em frente. Um pouco depois, encontrei K., um alemão capricorniano que iluminava tudo quando sorria. Depois de algumas cervejas, um desencontro e um novo encontro, esqueci todo o resto. Foi um encontro de almas.

Por sorte, já tinha visitado o Memorial do Holocausto, o Portão de Brandemburgo e a Ilha dos Museus de Berlim quando encontrei ele pela primeira vez, em um bar perto da Estação Zoo, comemorando uma bem sucedida entrevista de emprego. Perdia a noção do tempo e da hora quando estava com K.. Fiquei com o coração mole quando ele chorou ao me falar sobre a participação do avô paterno na Segunda Guerra Mundial e sobre se sentir mais responsável do que os outros no dever de não deixar que coisas assim voltem a acontecer. 

Cerveja alemã em Berlim

Por fim, ele me pediu para ficar, no meio do abraço mais aconchegante que eu tinha recebido em muito tempo. Mas o roteiro estava pronto e, na minha cabeça, a viagem tinha que continuar. Então, antes que meu coração fosse partido, parti mais uma vez.

Passei por Amsterdam rapidamente e conheci apenas o básico, seguindo viagem depois de apenas duas noites. Cheguei, enfim, à cidade do roteiro que mais sonhava em conhecer. Além dos encantos de Paris, na França, também me dava um friozinho na barriga a expectativa de encontrar o francês que conheci no Recife durante a Copa do Mundo do Brasil.  M., além de ser lindo, me apresentou ao Google Maps.

Google Maps

Meu mundo de viajante ficou muito melhor quando ele me enviou uma imagem que cada detalhe do percurso que eu precisaria fazer. Depois de um dia turístico para mim e de trabalho para ele, nos encontramos no café na avenida Champs Élysées.

Conversamos, tiramos fotos no Arco do Triunfo, colocamos um cadeado na Pont des Arts (calma, foi com os nomes dos meus pais) e deitamos no campo gramado abaixo da Torre Eiffel para conversar sobre os nossos sonhos, viagens, pais e cidades.

Nos encontramos no dia seguinte e, enfim, notei a chegada do desencanto quando tocou Twist And Shout, que eu adoro e ele nunca tinha ouvido. A gente tinha alguma coisa muito legal em comum, mas não era tanto assim. Como amigos, voltamos cada um para os seus lugares.

Sem M., a minha última noite na Cidade Luz começou solitária. Mas tomei banho e me preparei para aproveitar a festa do hostel até mesmo sozinha. Foi quando dei de cara com S., um canadense gente boa que tinha acabado de chegar. Então o chamei para uma cerveja. "Somente uma."

Temos muito em comum. A primeira coisa é não cumprir exatamente o combinado. Mas, no hotel de ficamos, o St Christopher's Inn Canal, a festa do dia era super legal. As pessoas eram convidadas a cantar no microfone. Não chegamos a arriscar, mas tomamos pelo menos dois baldes de cervejas, conversamos, fomos muito paquerados e ouvimos músicas até sermos expulsos do bar, porque eles queriam fechar. A noite terminou quase na hora de arrumar a mochila e ir para o aeroporto com as lembranças de uma das noites mais leves e divertidas.

Depois de tantos encontros e histórias, o lindo garoto de Hamburgo que conheci em Berlim (K.) seguia mandando mensagens diariamente. Pensamos como podíamos nos encontra ainda naquela viagem, mas não havia mais tempo. Deixei a Alemanha com uma mensagem dele agradecendo por eu ter entrado na sua vida, uma aperto de saudade no coração e várias lágrimas nos olhos.

Foi quando percebi que queria mesmo era ter permanecido em Berlim e que, apesar do pouco tempo, já sentia por ele coisas que nem entendia e nem conseguia explicar. Fui embora com o coração partido. É assim mesmo quando a gente se permite viver e sentir.

Roteiro de um mês na Europa:
5/5 Recife - Frankfurt
6/5 Frankfurt – Barcelona
10/5 Barcelona – Roma
4/5 Roma – Budapeste
16/5 Budapeste – Vienna
18/5 Vienna – Berlim
24/5 Berlim – Amsterdam
27/5 Amsterdam – Paris
1/06 Paris – Frankfurt
2/06 Frankfurt - Recife

Códigos e descontos para hospedagens:
R$ 130 em desconto no Airbnb
Crédito de R$ 40 no Booking

Contato:
E-mail: ahvamosviajar@gmail.com
Instagram: @ahvamosviajar
Facebook: /AhVamosViajar
Youtube: c/Ahvamosviajar


* Priscilla Aguiar é jornalista, editora adjunta do Portal FolhaPE e criadora dos perfis 'Ah, vamos viajar' no Instagram, Facebook e Youtube com dicas, fotos e vídeos de suas passagens por pelo menos 17 países. 

O muro dos “Eu te amo” ou “Le mur des je t'aime”, um muro em Paris, na França, com diversos jeitos de se falar eu te amo ao redor do mundo
O muro dos “Eu te amo” ou “Le mur des je t'aime”, um muro em Paris, na França, com diversos jeitos de se falar eu te amo ao redor do mundoFoto: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar
Palácio de Schönbrunn, em Viena, na Áustria
Palácio de Schönbrunn, em Viena, na ÁustriaFoto: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar
Palácio de Schönbrunn, em Viena, na Áustria
Palácio de Schönbrunn, em Viena, na ÁustriaFoto: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar
No campo gramado abaixo da Torre Eiffel, em Paris, na França
No campo gramado abaixo da Torre Eiffel, em Paris, na FrançaFoto: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

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