Vamos Viajar

Priscilla Aguiar

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Memorial do Holocausto, em Berlim, na Alemanha
Memorial do Holocausto, em Berlim, na AlemanhaFoto: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

Metrópole em transição desde a reunificação, em 1990, Berlim, na Alemanha, tornou-se uma das cidades mais fascinantes do mundo. Centro da Europa e palco de inúmeros acontecimentos históricos mundiais, a Cidade Cinza - apelidada assim por conta do clima - é um verdadeiro museu a céu aberto. Regida por espaços culturais, como óperas, museus, galerias, cinemas e teatros, a capital alemã é um destino atrativo em qualquer época do ano. 

Mas, muito mais do que um local turístico, o destino convoca a uma reflexão sobre censura, militarização, segregação, racismo, extremismo, antissemitismo e anticomunismo. Essas posturas, tão marcantes no Regime Nazista (1933-1945), voltam à tona com o crescimento, em todo o mundo, de movimentos populistas de extrema direita, impulsionados pela vitória de Donald Trump, nos Estados Unidos.

No Brasil, o debate em torno do assunto aumentou com a proximidade das eleições presidenciais, em 7 de outubro. Algumas vezes acalorada demais e fora do tom, essa discussão ainda é extremamente necessária.

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É para evitar movimentos nacionalistas e segregadores como o nazsimo que os alemães ensinam desde muito cedo a história do Terceiro Império - ou Reich. E não é preciso ir muito longe para esbarrar na lembrança de algum dos judeus assassinados em câmara de gás, torturados ou fuzilados.

Em frente a casas de Berlim, você pode ver placas douradas. Trata-se de uma Stolperstein, que, em tradução livre, significa obstáculo ou pedra de tropeçar. E o tropeção pode e deve doer, já que elas estão ali para lembrar que, naquele local, moravam judeus assassinados pelos nazistas.

 

"Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado." Emília Viotti da Costa


É lembrando do que aconteceu que a Alemanha cuida do futuro. Eles preservam a história para que ela não se repita e sentem a responsabilidade de lutar para que isso não aconteça novamente. Em uma mesa de bar, perguntei a um dos meus melhores amigos alemães uma coisa pela qual ele se sentisse abençoado. "Ter nascido em tempos de paz" foi a resposta, dada com olhos azuis-esverdeados, marejados, e com uma profunda vergonha em ter descoberto que o avô teve participação ativa nesse tempo tão sombrio da história.

Isso foi em 2016 e até hoje sinto o coração apertar ao lembrar. Por isso, peço aos leitores da Coluna Vamos Viajar que, antes de decidir em quem votar, façam um passeio, mesmo que virtual ou por meio de livros e filmes, nesse período da história mundial. A ideia não é mudar a decisão de ninguém, mas mostrar um pouco do que vi e senti em uma das minhas mais ricas jornadas pelo Velho Mundo para que vocês tirem as suas conclusões sobre isso.

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Nascida em tempos de paz, eu também não tinha vindo ao mundo quando o Brasil viveu um regime ditatorial (1964-1985), mas sinto hoje um pouco da responsabilidade em falar sobre como acho importante ressaltar esse tempo do nosso país e em como a história alemã me toca sempre que coloco os pés lá. Espero, com todo o meu coração, que o povo brasileiro não precise passar por outros períodos deste tipo para entender a bênção que é viver em liberdade e paz

 

Berlim, Alemanha

Berlim, Alemanha - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

Agora é hora do nosso tour. Preparei uma playlist com música erudita alemã especialmente para ele. Dê o play e confira a lista com dez lugares deste encantador caldeirão cultural que você não pode deixar de visitar.

Muro de Berlim (Berliner Mauer)
Em 9 de novembro de 1989, por volta das 22h, o Muro de Berlim foi aberto quase como um mal entendido, quando guardas da fronteira, sem entender a multidão que marchava pacificamente em direção as passagens da barreira física que dividia a Alemanha Ocidental (capitalista) da Oriental (socialista), levantaram as cancelas e deixaram eles passar. Terminava a Guerra Fria e o muro de Berlim foi derrubado no que tornou-se marco histórico do seu fim. A unificação oficial do país aconteceu no ano seguinte.

 

Muro de Berlim, Alemanha

Muro de Berlim, Alemanha - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar



Galeria do lado leste (East Side Gallery)
Hoje o maior pedaço do muro de Berlim de pé abriga a East Side Gallery, as margens do rio Spree. Esse 1,3 km ganharam este nome por causa dos grafites, pinturas, desenhos e rabiscos feitos na face leste do muro, que era virada para o lado comunista. Artistas se apropriaram do muro em fevereiro de 1990, menos de quatro meses após a sua queda, expressando liberdade e otimismo naquelas paredes antes opressoras.

Uma das imagens icônicas nele é o "beijo fraternal" entre o líder soviético Leonid Brezhnev e o presidente comunista alemão Erich Honecker. A cena aconteceu de verdade e ganhou no grafite a legenda "Deus me ajude a sobreviver a esse amor. Com o passar dos anos as pinturas foram sendo deterioradas e, em 2009, uma ONG iniciou uma restauração que terminou virando uma grande polêmica em meio a um debate por direitos autorais. Mas a East Side Gallery segue colorindo o símbolo de parte tão dolorosa da história mundial.

 

 

Muro de Berlim, na Alemanha

East Side Gallery, na Alemanha - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar



Memorial aos Judeus Mortos da Europa (Holocaust Mahnmal)
Dedicado a milhões de judeus mortos durante o regime nazista, o Memorial aos Judeus Mortos da Europa, também chamado de Memorial do Holocausto, fica no coração de Berlim e bem perto do Portão de Brandemburgo. São 2.711 blocos de concreto de diferentes alturas que provocam sensações e reações distintas em cada pessoa que pisa ali. É uma parada indispensável para quem visita Berlim.

A primeira vez que fui nesse lugar não conseguia sorrir. Na verdade fiquei mal. Por mais que não tenha sido um campo de extermínio, o memorial consegue, provavelmente pelas dimensões, tamanhos e formas, perturbar um pouco quem visita, ao menos nas primeiras vezes. Para mim é um lugar para pensar, refletir. Mesmo assim, já vi crianças e até adultos correndo e sorrindo em meio ao monumento. É o que volta a acontecer naturalmente mesmo após grandes dores ou desastres, não é mesmo? Vá até lá, tire a sua própria conclusão e depois me conte. 

 

 

Memorial do Holocausto

Memorial do Holocausto - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar


 

Portão de Brandemburgo (Brandenburger Tor)
Mesmo que nunca tenha pesquisado sobre a Alemanha, é bem provável que você tenha visto a antiga porta de entrada de Berlim, ao menos nos noticiários. Hoje um dos marcos mais conhecidos da Alemanha, o Portão de Brandemburgo é o ponto de encontro de alemães e estrangeiros para manifestações quando ocorre algum acontecimento marcante. Os turistas se amontoam o dia todo em busca de uma das mais representativas fotos de sua viagem a Berlim.

O majestoso portão foi cenário de diversos fatos históricos. Sob os seus arcos passaram membros da realeza, tropas de Napoleão e até desfiles nazistas. Projetado por  Carl Gotthard Langhans, ele foi construído no fim do Século 18, entre 1788 e 1791, como um arco do triunfo neoclássico de 26 metros de altura, lembrando as construções da Acrópolis de Atenas, na Grécia. A quadriga -carro de duas rodas puxado por quatro cavalos emparelhados- de cobre que representa a deusa da vitória em uma carruagem puxada por quatro cavalos foi recebida em 1795 e destruída na Segunda Guerra Mundial. Uma réplica foi colocada no mesmo local. 

 

Portão de Brandemburgo

Portão de Brandemburgo - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

 

Ponte Oberbaum (Oberbaumbrücke)
É uma ponte de piso duplo que cruza o Rio Spree. Considerada um dos marcos da cidade, ela liga Friedrichshain e Kreuzberg, antigos bairros que foram divididos pelo Muro de Berlim, e se tornou um símbolo importante da unidade.

O convés inferior da ponte leva uma estrada, que liga Oberbaum Straße ao sul do rio com Warschauer Straße ao norte. O andar superior da ponte transporta as linhas U1 e U3 de Berlim U-Bahn, entre as estações Schlesisches Tor e Warschauer Straße. A ponte aparece com destaque no filme Run Lola Run, de 1998.

 

Ponte Oberbaum

Ponte Oberbaum - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

 

 Estádio Olímpico de Berlim (Olympiastation Berlin)
Construído durante o nazismo para os Jogos Olímpicos de Verão (1936), o Estádio Olímpico de Berlim foi onde o atleta negro americano Jesse Owens entrou para a história conseguindo quatro medalhas de ouro e pondo em xeque as teorias de superioridade da raça ariana disseminadas por Hitler.

Ele venceu os 100 metros, 200 metros, a prova do salto em distância e o revezamento 4×100. Até hoje há muita controvérsia sobre se Owens foi cumprimentado ou não por Adolf Hitler. Há até quem diga que o ditador virou as costas para ao americano. O fato é que o nome do velocista será sempre reverenciado como resposta ao discurso segregador nazista.

Localizado em Charlottenbourg, distrito de Berlim, o estádio hoje é palco de diversos eventos esportivos importantes e também de grandes shows. Estive já no último dia 22 de junho para um show incrível dos Rolling Stones, quando mais de 80 mil pessoas lotaram o estádio histórico.

Estádio Olímpico de Berlim

Estádio Olímpico de Berlim - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar


A Igreja Memorial Imperador Guilherme (Kaiser-Wilhelm-Gedächt)
Construída em 1890 e destruída durante a Batalha Aérea de Berlim, na Segunda Guerra Mundial, a igreja protestante batizada em homenagem ao rei Guilherme I da Alemanha é hoje um memorial da guerra e um dos marcos mais famosos da cidade. Decidiram manter ela ali, em ruínas, para lembrar das destruições provocadas por uma guerra.

 

Igreja Memorial Imperador Guilherme (Kaiser-Wilhelm-Gedächt)

Igreja Memorial Imperador Guilherme (Kaiser-Wilhelm-Gedächt) - Crédito: Prisilla Aguiar/@ahvamosviajar


A Catedral de Berlim (Berliner Dom)
Com cúpulas marcantes, a maior e mais importante igreja protestante de Berlim é também uma das maiores da Europa. Construída entre 1895 e 1905, ela se encontra na Ilha dos Museus, vizinha ao Lustgarten e ao Berliner Stadtschloss (sede do governo municipal de Berlim). A visita paga custa 7 euros e você pode subir até a parte superior e ter uma vista 360 graus da cidade. 

Catedral de Berlim (Berliner Dom)

Catedral de Berlim (Berliner Dom) - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

 

Palácio das Lágrimas (Tränenpalast)
Ir embora, em lágrimas, deixando amigos e família. No Palácio das Lágrimas ficamos diante da dor de quem foi separado pelo Muro de Berlim. Neste local, onde era feito o controle de passaporte, muitos não sabiam quando teriam novamente autorização para ver os seus familiares naquele país dividido e iam as lágrimas ali mesmo. Por isso, ganhou este nome.

Junto à estação de Friedrichstrasse, o espaço conectava Berlim Ocidental e Oriental. Vários eram barrados após a análise da documentação. Além de roupas, documentos, objetos e vídeos daquele período, há no palácio uma réplica da antiga cabine onde era feita a "entrevista" com o guarda que iria liberar ou não a travessia. É uma atração gratuita e normalmente não está nos guias turísticos. Procure conectar-se com a dor dos que passaram ali com calma e depois caminhe para colocar toda essa energia para fora.

 

Palácio das Lágrimas

Palácio das Lágrimas - Crédito: Priscilla Aguiar/@ahvamosviajar

 

A escultura Berlim (Berlin Sculpture - Broken Chain)
Situada bem próxima a Igreja da Memória (Gedächtniskirche), a escultura de Brigitte e Martin Matschinsky simboliza uma corrente quebrada e as várias conexões entre Berlim Oriental e Ocidental durante a Guerra Fria. Foi criada para a Skulpturenboulevard, uma exposição realizada para o 750º aniversário de Berlim, em 1987.

Originalmente concebida para ser uma instalação temporária, as esculturas foram compradas pelo Senado e instaladas de forma permanente na cidade. Foram três ao todo. Esta se chama "Berlim" e fica localizada entre a Neuremberg e a Marburger Strasse.

 

Berlin Sculpture - Broken Chain

Berlin Sculpture - Broken Chain - Crédito: Sokleine/Flickr


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Contato:
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* Priscilla Aguiar é jornalista, editora adjunta do Portal FolhaPE e criadora dos perfis 'Ah, vamos viajar' no Instagram, Facebook e Youtube com dicas, fotos e vídeos de suas passagens por pelo menos 17 países. 

 

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