Na Ilha do Retiro, Everton Felipe acende vela diante de imagem de Nossa Senhora de Fátima, protetora do clube e que acompanha delegação nas viagens
Na Ilha do Retiro, Everton Felipe acende vela diante de imagem de Nossa Senhora de Fátima, protetora do clube e que acompanha delegação nas viagensFoto: Williams Aguiar/Sport Club do Recife

O fato de o imponderável ser intrínseco ao futebol, de certa forma, injeta ao esporte generosas doses de vulnerabilidade racional e desperta sentimentos - por vezes até egoístas. A emoção, surgida em qualquer torcedor, o distancia da razão. Campo fértil, assim, para o nascimento da fé. Promessas são feitas por um resultado positivo; orações, sussurradas antes de um pênalti convertido; E quando os suplícios não são atendidos, e a derrota acontece, amaldiçoado será o responsável por aquele infortúnio. Caso tenha havido alguma identificação diante dos exemplos citados, difícil será você jogar a primeira pedra. Mas há, sim, quem queira separar a religião do futebol. Ou, pelo menos, deixá-la reservada apenas para as arquibancadas. “No Santos vamos falar de trabalho, não de religião”, disse técnico Levir Culpi.

Antes de tudo, importante destacar a opção filosófica do comandante santista. Levir Culpi é declaradamente agnóstico. Aos menos familiarizados com o termo, explico: os agnósticos consideram inútil discutir temas metafísicos, pois acreditam que são realidades não atingíveis através do conhecimento. Ou seja, a razão humana não possuiria capacidade de fundamentar racionalmente a existência de um Deus. Ser agnóstico não significa, necessariamente, ser ateu (aqueles que não acreditam na existência de um Deus). Aos agnósticos teístas cabe aceitar a possibilidade de um Deus existir, mesmo que não haja como a racionalidade humana explicá-lo.

O posicionamento de Levir Culpi foi dado em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, há um mês. “Sobre o culto religioso, acho que quando entramos pelo portão do Santos vamos falar de trabalho e de futebol. Agora, quando saímos, cada um vai para onde quiser. Pode ser umbandista ou ateu, mas religião dentro do trabalho, não. Quando vamos sair de ônibus nós nos reunimos, fazemos uma oração. É um negócio bacana, que só fortalece o grupo. Apesar de eu ser um agnóstico, aceito qualquer manifestação religiosa desde que não fira alguns princípios”, afirmou o treinador. Vale lembrar que, assim como em muitos clubes, o elenco santista possui vários jogadores evangélicos. O atacante Ricardo Oliveira, um dos líderes do grupo, é pastor e costuma convidar colegas para cultos.

ATLETAS DE CRISTO

Durante a disputa da semifinal da Taça Guanabara - equivalente ao primeiro turno do Campeonato Carioca -, em 2013, uma polêmica envolveu o nome do goleiro Jefferson, do Botafogo. O jogador foi a campo com o desenho de um peixe no corte de cabelo. A imagem faz referência a uma associação denominada Atletas de Cristo. Fundado em 1980, o grupo segue atraindo cada vez mais adeptos em variados esportes. A maioria, no entanto, é de atletas de futebol. Hoje, mais de sete mil desportistas compõem a entidade. Segundo a Fifa e o Código Brasileiro de Justiça Desportiva, é proibida qualquer manifestação religiosa dentro de campo.

Os Atletas de Cristo são voltados para a pregação evangélica. A instituição não cobra dízimo. Entre os mais antigos e famosos propagadores da palavra dos Atletas de Cristo estão o ex-goleiro João Leite, o ex-meia Silas, o ex-atacante Euller e o ex-piloto de Fórmula 1 Alex Dias Ribeiro. Durante a Copa do Mundo de 2010, a Seleção Brasileira contava com Lúcio, Kaká, Felipe Melo, Gilberto Silva, Luisão, Juan, Josué e o auxiliar técnico Jorginho, todos componentes do grupo. Sempre após os jogos e treinamentos, esses atletas se reuniam para momentos de pregação, oração e leitura bíblica. Segundo dados do IBGE, de 2010, os evangélicos são 22,2% da população brasileira.

Sempre que tem a oportunidade para falar sobre alguns de seus ex-companheiros, autodenominados “atletas de cristo”, o folclórico Vampeta, pentacampeão mundial, em 2002, faz referências a Marcelinho Carioca. A história aconteceu entre 2005 e 2006, em Brasília, quando ambos atuavam no Brasiliense, e foi contada durante um evento institucional de uma fabricante de automóveis, em 2015. Segundo o ex-volante, o então companheiro o convidou para um culto em sua casa.

“Eu falei que não poderia ir porque a gente tinha jogo no domingo e era sexta-feira. Mas Marcelinho disse que o culto ia ser bom. Então eu fui.” O cenário, no entanto, era bastante diferente do esperado por Vampeta. “Eu já entrei e procurei o pastor e quem estava cantando? Belo, o cantor. Aí disse pro Marcelo: ‘Esse culto é diferente, hein? Mas tem jogo domingo’. E ele respondeu: Fica tranquilo que o culto só vai até as três da manhã”, finalizou o ex-volante. Nos anos 1990, Marcelinho Carioca chegou a ter um grupo chamado “Divina Inspiração”, que cantava músicas evangélicas em ritmo de pagode.

FÉ EM PERNAMBUCO

O Sport é uma clube declaradamente católico. Tanto que no dia de seu aniversário, todos os anos, uma missa em homenagem a Nossa Senhora de Fátima é feita na sede rubro-negra, na Ilha do Retiro, em frente a um altar dedicado à santa. O dia 13 de maio, inclusive, também é dedicado a ela. Conta a tradição cristã que nesta mesma data, em 1917, a padroeira do clube se mostrou pela primeira vez a três pastores em Portugal. Outras imagens de Fátima também podem ser encontradas no Centro de Treinamento leonino, em Paratibe, e no vestiário da equipe. Alguns atletas, também devotos, têm o costume de fazer orações diante da imagem antes dos jogos. E nas viagens do elenco, uma a padroeira é levada, sob a justificativa de uma proteção superior.

No caso alvirrubro, há também uma padroeira: Nossa Senhora da Conceição. Há nos Aflitos uma capela também dedicada à santa, que fica por trás da Rua Manoel de Carvalho, dentro das dependências do Náutico. Um pouco mais maleável com relação à religiosidade dentro dos vestiários, ao contrário de Levir Culpi, o técnico Roberto Fernandes acredita que deva existir tranquilidade no trato do assunto.

“O fanatismo atrapalha em qualquer área, em qualquer segmento. Mas dentro do futebol, de forma equilibrada, eu acho que se convive muito bem. Falo isso em relação aos jogadores que têm religiões diferentes. O importante é que você tenha, sobretudo, respeito às diferenças, às crenças, e você possa ter uma convivência harmoniosa”, disse o treinador. “A oração universal é o ‘Pai Nosso’ e ela continua sendo soberana. Cada um, independente disso, segue seus rituais, seus segmentos religiosos e aquilo que acredita. Mas eu volto a falar, o mais importante é o respeito, a convivência pacífica e a tolerância entre os jogadores”, completou Roberto Fernandes.

Durante a disputa da final do Campeonato Pernambucano de 2012, um ato de fé pode ter sido decisivo para que o Santa Cruz conquistasse o título em cima do Sport, em plena Ilha do Retiro. Pelo menos, foi o que garantiu o então auxiliar técnico tricolor Sandro Barbosa. À época, ele afirmou que no meio da semana, recebeu um recado divino e fez a proposta de escalar o meia-atacante Branquinho. “Falei com William (outro auxiliar-técnico) sobre o que havia acontecido. Disse a ele: ‘Se Zé Teodoro (técnico do Santa Cruz) aceitar, a gente vai para o pau, dentro da Ilha’. A gente foi falar com Zé. Disse: ‘Zé, vamos ser ousados, vamos para cima deles. A escalação é essa mesmo, foi Deus que nos deu’. Zé acreditou”. A partida foi vencida pelos corais, com o placar de 3x2. Branquinho foi o autor do primeiro gol do jogo. “É bom trabalhar com uma pessoa que te escuta. Deus é maravilhoso”, completou Sandro.

PRECONCEITO

Uma foto publicada no Instagram pessoal do volante Feijão, de 23 anos, cria da base do Bahia, foi alvo de preconceito. O jogador fazia referência ao seu orixá, Ogum. O jogador foi chamado de "macumbeiro", "carniça" e "miséria" por um internauta. Este mesmo usuário ainda exigiu a saída dele do clube. Feijão respondeu: "Sou macumbeiro mesmo, não tenho vergonha não. Quem é você para me mandar embora do Bahia?"

Segundo a mitologia do candomblé, Ogum é o orixá ferreiro, senhor da guerra, da agricultura e da tecnologia. O próprio, inclusive, forjava suas ferramentas, para todas essas atividades. O arquétipo de guerreiro impetuoso, que não desiste das batalhas, pelo visto, também foi assumido pelo jogador, que já negou fazer oferendas para fins esportivos. Faz apenas para se sentir bem. O candomblé é herança da família de Feijão. Foi ensinado pela mãe e antes pela avó, no terreiro que frequenta, de Pai Ricardo.

Vale lembrar que, ataques a práticas e cultos religiosos é crime pelo Código Penal (artigo 208), com pena que varia de um mês a um ano de detenção e multa. Feijão chegou a comentar rapidamente sobre o ocorrido antes de treino no Fazendão, Centro de Treinamento do Bahia. “As pessoas estão confundindo as coisas. Confundindo muito. Respeito todas as religiões e espero que respeitem a minha. Sou do candomblé e com muito orgulho. Espero que tenha coragem de falar na minha frente. Na rede social é muito fácil", declarou.

A última partida de Feijão foi no dia 22 de junho, contra o Corinthians. Na ocasião, o time perdeu por 3x0, em São Paulo, e ele falhou no terceiro gol, já nos minutos finais. O Bahia está na disputa da Série A do Campeonato Brasileiro. Após a derrota para o Sport, em casa, pelo placar de 3x1, teve o seu técnico demitido. Ele era o evangélico Jorginho. Nesta temporada, tanto o atleta quanto o treinador chegaram a trabalhar juntos.

Na Ilha do Retiro, Everton Felipe acende vela diante de imagem de Nossa Senhora de Fátima, protetora do clube e que acompanha delegação nas viagens
Na Ilha do Retiro, Everton Felipe acende vela diante de imagem de Nossa Senhora de Fátima, protetora do clube e que acompanha delegação nas viagensFoto: Williams Aguiar/Sport Club do Recife
Levir Culpi é agnóstico e diz que não se preocupa com a opção de cada atleta fora dos gramados
Levir Culpi é agnóstico e diz que não se preocupa com a opção de cada atleta fora dos gramadosFoto: Ivan Storti/Divulgação Santos FC
Roberto Fernandes montou a equipe no 3-5-2
Roberto Fernandes montou a equipe no 3-5-2Foto: Paullo Allmeida/FolhaPE

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