Edson Dantas, pai de Ademário Gomes
Edson Dantas, pai de Ademário GomesFoto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Ademário Gomes tinha 19 anos quando foi indiciado por dois crimes: corrupção de menor e homicídio qualificado. Era um dos acusados pelo assassinato de José Bernard , o educador Betinho do Agnes, morto na noite de 16 de maio de 2015. Nesta quarta-feira (6), o pai dele, Edson Dantas, diretor do Colégio Presbiteriano Agnes Erskine deu uma entrevista ao Portal FolhaPE na qual fala sobre os erros da investigação que apontaram, injustamente, seu filho como criminoso. Dantas manteve-se em silêncio boa parte do tempo em que o processo correu e, três laudos depois, diz que a família recebeu aliviada as provas que inocentam Ademário, hoje com 21 anos.

Início das investigações
No começo, a gente estava naquela fase de ainda de buscar a verdade. Qualquer afirmação que a gente fizesse, teria sido como uma conjectura. Falei sobre a surpresa (com crime) e sobre a acusação (do filho, Ademário). Foi logo no começo, o inquérito não tinha sido nem concluído ainda. Com uma semana de investigação, o delegado já apontava os estudantes como responsáveis. Mas ele levou ainda quatro meses e 15 dias para concluir o inquérito e tudo o que foi apresentado foram esses fragmentos de digitais do meu menino, um fragmento de digital em uma cômoda da sala e, do menor, cinco digitais nos objetos utilizados no crime.

Testemunhas
O que nos despertou a atenção foi que todas as testemunhas ouvidas, moradores, frequentadores e funcionários afirmaram que nunca viram meu filho no prédio. Na audiência de instrução, meu filho estava presente e o Ministério Público perguntava à testemunha: você conhece aquele rapaz? Sabe quem é? Já viu alguma vez? E todos negaram. Nas filmagens das câmeras do prédio não existe nenhum registro de presença do meu filho e nem do menor.

Novos laudos
Nós contratamos um perito e, com a autorização da Justiça, trouxe a prova de que a digital que estavam atribuindo ao meu filho não pertencia a ele. Isso foi apresentado na audiência de instrução, quando o nosso perito levou as digitais e mostrou ao juiz e ao promotor: essa digital aqui não tem nada a ver com essa (diz, mostrando os documentos). Por conta disso, o juízo encaminhou para a Justiça Federal para fazer uma segunda perícia, que chegou a duas conclusões: 1) a digital não pertence ao acusado, a Ademário; 2) a digital pertence à vítima. Veja só: eles pegaram a digital da vítima e acusaram meu filho. O Ministério Público (MP), não satisfeito com esse resultado, se posicionou para que se fizesse uma terceira perícia, agora pelo Instituto de Criminalística (IC), que chegou às mesmas conclusões. O mesmo resultado teve a Polícia Federal. Nesse ínterim, o IITB (Instituto de Identificação Tavares Buril) mandou um ofício para o Ministério Público (MP) retificando o trabalho deles, os três papiloscopistas que, inicialmente e em entrevistas, afirmaram que a digital pertencia ao meu filho e as outras cinco, ao menor.

Eles dizem que no ofício enviado ao MP pelo IITB: “confrontos papiloscópicos resultantes das perícias realizadas no local de crime e no laboratório, como de praxe em nosso Estado, uma vez que não possui o sistema automatizado de análise de impressões digitais foi por comparação visual humana”. Eles elaboraram um laudo no olho. Aí eles enviaram esse ofício retificando e a única prova que tinha contra meu filho, que era a impressão digital (...). Então o que resta? Nada. A gente espera que o juiz determine uma absolvição sumária. Não só isso, esperamos também que os papiloscopistas sejam investigados pela Corregedoria.

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Nova perícia para o adolescente
Quando saiu o laudo da Polícia Federal (PF) dizendo que a digital não pertencia ao meu filho, a defesa do menor solicitou que fosse feita a mesma coisa com as digitais dele. Aí esse material foi enviado para a PF em Brasília, que chegou à seguinte conclusão: as cinco digitais que eram atribuídas ao menor, quatro não têm como ser identificadas e a única que dá para saber de quem é, é da vítima, de Betinho. Aí se diz que é erro. É muito difícil aceitar que seja erro, foi um conjunto.



DNA
Eu não posso condenar ninguém, acusar ninguém, porque eu não quero fazer o que fizeram com a minha família. O que fizeram com esses dois estudantes. (...) Eu continuo acreditando nas instituições, mas eu sei que em todas elas existem pessoas que não correspondem à confiança que foi dada. Essas pessoas têm fé de ofício e, por isso, tiveram toda a credibilidade. O que foi que a mídia fez? Noticiou o que eles produziram, e muita gente acreditou. Quem não acreditou nessa história foi quem convivia com a gente. Esses papiloscopistas chegaram a afirmar de que o laudo deles tinha tanta credibilidade quanto o laudo produzido por DNA. O Ministério Público pergunta isso (nos autos) e os peritos do Instituto de Criminalística dizem o seguinte: de maneira nenhuma, esse laudo que foi feito ‘no olho’, está passível de erros. Um resultado de DNA é uma ‘prova ouro’ em termos do resultado do laudo. É para você ver o absurdo. Passaram quatro meses e 15 dias de investigação, todo esse tempo de exposição e de desgaste para todos nós.

“Um dia a verdade vai aparecer”
Foram momentos difíceis. Houve um susto muito grande, tanto pela morte de Betinho quanto pelas acusações dos estudantes e, pessoalmente, do meu filho. Meu mundo acabou, eu afirmei para mim mesmo. E ele disse: pai, eu nunca estive naquele prédio, nunca fui lá. Muitas vezes estávamos, a mãe dele e eu, angustiados, e ele dizia: ‘eu nunca fui lá, aquela digital não é minha não. Um dia a verdade vai aparecer’. E ela está aparecendo agora.

Ônus das acusações
A família toda foi penalizada. Ele estava na 3ª Série do Ensino Médio e, mesmo assim, ele foi aprovado em duas faculdades. Começou a estudar e quando foi em maio de 2016, que completou um ano e veio à tona toda a história de novo, nome, imagem, e tivemos que trancar a matrícula dele. (...) A vida dele é uma prisão domiciliar, praticamente. (...) A nossa vida toda parou.

Eu recebi ajuda não só emocional, financeira também. Tive uma custo muito alto para bancar toda essa situação. Algumas pessoas pensam que eu sou dono da escola, mas eu sou funcionário do colégio há sete anos, e eu recebi ajuda de muitas pessoas, por isso que a gente conseguiu ter uma estrutura para levar o caso. Eu sempre orei para que a verdade aparecesse, porque tem a vítima. Todo mundo gostava de Betinho, ele sempre agiu com muito profissionalismo dentro da escola. A vida privada é dele, e foi nessa vida privada que aconteceu o crime.

Eu cheguei a confrontar (Ademário): se a única maneira que você tivesse de escapar dessa situação fosse dizendo que esteve lá algum dia, não no dia do crime, você diz? Ele respondeu: "pai, eu não vou mentir". A pressão foi muito grande. Foi pedida a prisão preventiva dele. só quem passa por essa tensão é quem sabe o que é isso. Você tem um pedido de prisão batendo à sua porta. A gente não tinha experiência de nada, qualquer sirene já nos deixava assustados. Nesses dois anos e seis meses, não teve um dia de tranquilidade.

“Só precisa ler o processo”
Eu posso dizer que não precisa começar do zero, só precisa ler o processo, só precisa assistir às gravações das audiências de instrução. Tem material suficiente para perceber quem pode estar envolvido nesse crime. A gente vive um problema crônico. Esse processo passou por cinco promotores, a gente ia para uma audiência de isntrução, era o promotor de plantão, ele pega o processo. Vc acha q ele teve tempo de ler o processo e de assistir à audiência anterior? Eles vão lá para a peça acusatória, no final, e se baseiam naquilop ali. Eu espero mesmo que o ministério público designe um promotor para examinar profundamente o processo e as gravações da audiência de instrução. Eu tenho certeza que, assim, se derem tempo a um promotor o caminho para se chegar ao assassino vai ser bem claro

Um sentimento é de alívio, que o pesadelo está acabando. Mas, do outro lado, a luta continua, porque a gente precisa saber quem matou Betinho. Enquanto o nome do assassino não for revelado, muita gente ainda vai acreditar que foi Ademário. Torcemos para que justiça seja feita.

Nós vamos buscar os nossos direitos. Nós fomos penalizados, nós fomos envolvidos na cena do crime, toda a nossa família. “Ah, é filho de pastor. E olha aí o filho envolvido”, foi o q eu li. E outras coisas mais, porque as pessoas gostam de julgar. O dano foi muito grande. (...) eu cheguei a entregar minha carta de renúncia à escola e à igreja, mas nenhum dos dois aceitou, senão o dano teria sido bem maior.

Edson Dantas, pai de Ademário Gomes
Edson Dantas, pai de Ademário GomesFoto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco
Edson Dantas
Edson DantasFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

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