Local que era conhecido por problemas de trânsito, alagamentos e acidentes, há um ano vitou palco de ensaios
Local que era conhecido por problemas de trânsito, alagamentos e acidentes, há um ano vitou palco de ensaiosFoto: Ed Machado

O que pode resultar de uma praça pública esquecida, com iluminação precária, sem brinquedos ou grama, no coração de um bairro populoso da periferia? A resposta que parece a mais óbvia envolve abandono e desprezo. No entanto, a força criativa e resistente de muitas comunidades cria novas narrativas, capazes de surpreender e transformar realidades. A praça do Caic professora Norma Coelho, em Peixinhos, Olinda, é um desses pequenos lugares. Lá é o ambiente de ensaio da Associação Cultural Nação Mulambo, premiada recentemente em uma gincana educacional que envolveu iniciativas de todo o Brasil, e local de treino para um grupo de 30 rapazes que praticam ginástica olímpica por conta própria, sem nenhum instrutor.

A praça fica na avenida Presidente Kennedy, que costuma aparecer nas reportagens pelos problemas de trânsito, alagamentos e acidentes. Há um ano ela foi o ponto escolhido pela educadora social Senhorinha Joana Alves da Silva, 32 anos, para concentrar os ensaios do grupo de percussão da Nação Mulambo, que em 2019 completa 23 anos de fundação. A Associação Cultural desenvolve, desde 2017, o projeto Orim Asa Ati Imôe (música, cultura e conhecimento em dialeto Iorubá), que fala sobre legado, raízes e cultura africana utilizando a música como ferramenta de diálogo.

A inciativa ficou entre as cinco melhores do País na Gincana da Educação, promovida pela plataforma Café Educação, com sede em Campinas (SP). O anúncio dos trabalhos ganhadores foi feito no fim de dezembro, mas só na noite de ontem os integrantes voltaram a se reunir para tocar juntos. “Nosso foco é levar cidadania, respeito e autoestima à vida destas crianças, que sofrem diversos tipos de preconceitos e violências. Acreditamos que pela música é possível passar conhecimento”, afirma Joana.

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O trabalho abraça crianças dos 7 aos 15 anos. O grupo percussivo, porém, é aberto para a participação de gente de todas as idades. Lindasilva Alves, 60 anos, toca ganzá desde que foi fundada. “É ótimo estar aqui com os mais jovens e aprender com eles”, conta. Ela é mãe da coordenadora do movimento. O mais novo do grupo é Artur da Cunha, 7 anos. Ele aprendeu a tocar repique com o irmão, Gutemberg, 15, que também maneja outros instrumentos.

A irmã deles, Maria Eduarda, toca agbé. No repertório, músicas de domínio público, afoxés, toques de terreiros e também canções contemporâneas, de artistas como Otto, Toca Ogan e Pácua. “Em 2009 gravamos um CD com canções de muitos compositores de Pernambuco. Já tocamos com Otto e sempre recebemos o apoio de outros artistas”, explica a coordenadora.

A Associação teve como fundador Marcos Axé, percussionista da banda de Otto, que faleceu de ataque cardíaco em novembro de 2017. Ele era irmão de Joana e filho de Lindasilva. A Associação, que consegue dinheiro promovendo vaquinhas entre os amigos, fechou recentemente uma parceria de financiamento com a fundação Action Aid, presente em mais de 40 países.

No ar

Ao lado dos tambores, cerca de 30 adolescentes praticam quase todas as noites ginástica olímpica na praça do Caic. A barra fixa foi instalada por eles mesmos, há cerca de um mês. Os rapazes perfuraram o chão, plantaram as hastes e mediram a altura, para que o travessão ficasse com aproximadamente dois metros do chão, possibilitando os movimentos mais difíceis. Com amigos, vizinhos e parentes, eles arrumaram colchões velhos. Como o chão da praça é de concreto, foram necessários vários para suportar as quedas sem machucar ninguém.

“Um amigo nosso aprendeu a ginástica na escola onde estudava. Ele ensinou a dois, que passamos para o restante”, explica Ewerton Frederico, 18 anos, que desde o ano passado pratica a modalidade na rua. Além da fixa, os meninos de Peixinhos também criaram uma barra paralela, que mede cerca de meio metro de altura. Já o instrumento usado nas competições oficiais mede 1,75m.

“A gente improvisa e faz do jeito que consegue, mas o negócio é continuar treinando e praticando, porque é um esporte que a gente gosta”, comenta Deivison Marques, 18. Nos próximos dias eles planejam fazer uma competição, reunindo gente de vários bairros.

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