Era uma vez

Leusa Santos

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Drummond e o mistério do bilhete
Drummond e o mistério do bilheteFoto: Prefeitura de Guarulhos (SP)/Divulgação

 

Drummond vinha andando na rua meio desconfiado. Mãos nos bolsos. Voltava da escola. Mochila nas costas. O tio a observá-lo sentado no batente do terraço de casa. O tio implicava com ele. Na verdade, é um tio meio irmão, meio primo. Pouca diferença de idade. Drummond tem dez anos. O tio, 16. Dessas famílias que começam cedo a desligar a televisão! Ao chegar em casa, no batente do terraço, o tio já o importuna:
- Que cara é essa, Dru?
- A mesma de sempre.
- Nada disso! Aprontasse algo, não foi? Tá estranho.
- Estranho nada.
- E essas mãos nos bolsos? O que tem aí?
- Aqui... nada.
- Tem sim alguma coisa! Tira pra eu ver.
- Para!
Tanto o tio fez e, na verdade, como tinha natural supremacia física, revistou o sobrinho, conseguindo tirar do seu bolso esquerdo um bilhete.
- Ah! Achei o seu mistério!
- Devolve isso! Não é seu!
- E é de quem? O que você esconde? - Perguntou o tio, segurando o papel como se fosse um troféu, ainda sem abri-lo.
- Escondo nada! Isso é...
- É o quê? Desembucha!
- Um negócio que escrevi. Besteira.
- Então se é besteira, vou abrir.
- Não, por favor!
Impiedoso, o tio, que mais parecia um irmão mais velho, abriu o papel e leu:
"Um morcego voa de madrugada. Toca na antena esquerda de um gafanhoto, mas é interrompido pela camisa sem abotoaduras lançada ao vento..."
- Que loucura é essa, Dru? Tás ficando doido?
- Eu? Não! Isso é coisa de Gertrudes.
- Quem é Gertrudes?
- Ela ainda não entrou na história.

 

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