Era uma vez

Leusa Santos

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Infinito
InfinitoFoto: Pixabay/Cortesia

O para sempre existe. E existe para sempre. Mas há quem não acredite na longevidade do para sempre. Para esses, o para sempre dura até que algo atravesse o seu caminho e quebre a continuidade, findando-o. Esse raciocínio pode ser relacionado ao casamento, por exemplo. “Até que a morte os separe” já é uma quebra do para sempre. Será?
Mas o para sempre não é apenas associado ao tempo. Há também o para sempre da intensidade. Feito amor de mãe, como diz Drummond, “é tempo sem hora, luz que não apaga”. E quando a mãe vai embora? Deus chama e Drummond diz que se pudesse baixaria um decreto para que ela aqui ficasse. Para sempre. Mas será que mãe deixa de ser mãe no outro plano? Ou é mãe para sempre?
O para sempre também pode ser ligado a um estado de espírito. De alma. Quem é, por essência, leve, traz consigo essa mansuetude de forma infinita no ser. É um estado que dura para sempre, porque não tem vacilos. Não permite interrupções. Pode até ser abalado, mas não se quebra. Atravessa um oceano bravio e chega a algum lugar ainda mais forte, ainda mais longevo. Um para sempre mais infinito.
E há também o para sempre negativo. Preocupações, revoltas, mágoas que não se acabam e, pelo contrário, são retroalimentadas por outras mágoas e ressentimentos. Funciona com um para sempre caleidoscópico, em que tudo está misturado, movendo-se infinitamente em torno de um eixo. E machuca, enquanto não decidirmos navegar no rio tranquilo.
O ser humano é um tipo de para sempre. Bem complicado. Mas é infinito. Humano e infinito. Parecem até sinônimos. E são. Todos os dias, células nascem e morrem. Um ciclo ininterrupto até que as forças físicas cessem de vez. Quando chega a morte. E um para sempre cede lugar a outro para sempre. Talvez seja melhor dizer que não há uma substituição de para sempre, mas uma continuidade da nossa infinitude de forma diferente. Que ainda é envolta sob o mistério. Ah, o mistério! Esse para sempre tão necessário e que nos mantém comedidos.

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