Era uma vez

Leusa Santos

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Só a vela é muda no velório de Aldemar
Só a vela é muda no velório de AldemarFoto: Pixabay/Cortesia

 

A casa de Aldemar estava cheia. Mas sempre vivia assim quando ele ainda respirava. Agora ele estava ali, naquele caixão com a portinha de vidro mostrando-lhe o rosto sereno. Talvez esse fosse o último dia em que aquela casa via muita gente. Aldemar era bem conhecido, não necessariamente querido, mas bem popular no sentido de ser uma pessoa do conhecimento de todos. Perto dali, ainda na sala, os cochichos:
- Soube que ele tinha outra mulher e até teve um filho com ela.
- E eles vêm para o enterro?
- Não sei. Acho que a família oficial não iria querer, né?
- Mas a esposa sabe?
- Essas coisas... Acho que sempre sabe.
No terraço, mais comentários:
- Parece que ele devia a um agiota. Bronca grande!
- É mesmo? E agora? Porque agiota nunca quer perder...
- Acho que a família vai ter de pagar.
- Mas eles sabem da dívida?
- Não sei. Certamente a esposa sabe. Difícil não saber.
Na frente da casa:
- Disseram que foi erro médico.
- Mas não foi enfarte?
- Encobriram. O médico parece que deu a dose errada de um remédio e o homem teve um treco.
- Mas o seu Aldemar era cardíaco?
- Até onde eu sei não. Mas devia ser hipertenso. É um caminho, né?
- Nem sempre.
- É mesmo. Conheço muita gente que vive muito bem com hipertensão.
- E diabetes também.
- Será que ele tinha diabetes e isso complicou?
- Pode ser.
- A família vai procurar a Justiça pra denunciar o médico?
- Certamente, né? A esposa dele deve ir atrás disso...
O padre:
- Caros, vamos nos despedir do nosso irmão Aldemar. Por favor, um minuto da atenção de todos. Aldemar era um homem cumpridor dos seus deveres, correto, íntegro, exemplo para a família...
Os cochichos:
- Será que a esposa vai vender a casa e ir para um lugar menor? Afinal, agora ela vai morar só...
- Pois é. Os filhos já estão casados...
FIM.

 

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