Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício Holiday
Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício HolidayFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Há oito dias, um curto-circuito interrompeu o fornecimento de energia ao edifício Holiday. O serviço não foi religado. Também falta água. Muitos apartamentos estão sendo esvaziados. Quem fica, tem dois aspectos em comum: a certeza de uma influência direta da especulação imobiliária no caso e a solidariedade que permite que as pessoas continuem vivendo no local. Então, na prática, são ajudas em série que mantêm o prédio de pé.

O primeiro socorro vem de fora: uma mulher sobe seis lances de escada do Holiday para levar garrafas com água congelada para o morador Cláudio Laureano, 70. Diabético, perdeu todo o estoque de insulina que havia na geladeira. Com o gelo doado e um isopor, consegue manter as novas. Para ele, o risco de incêndio é muito maior com as duas mil famílias acendendo velas todas as noites, que com a fiação.

Cláudio caminha com bengala e dificuldade. O aposentado tem uma prótese no quadril já fora de validade, com risco de necrose. Espera há oito meses a cirurgia, a ser realizada no Hospital das Clínicas. Mesmo assim, vai até o apartamento de Semíramis Gomes, 37, com frequência, que luta contra a depressão desde que ficou desempregada, há três anos. 

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Ela aprecia o gesto. “Aqui a gente compartilha como pode. Gelo, vela, e o que alguém tiver e outra pessoa precisar. Cláudio traz uma conversa que me ajuda muito. Hoje, se Deus o levar, faz mais falta que um parente”, conta. Para Cláudio, a aproximação entre os vizinhos são um efeito colateral positivo dos problemas vividos no edifício na última semana.

A corrente do bem continua, quando o marido de Semíramis surge trazendo a bebê de um morador do 11º andar, para que o pai da criança consiga levar o botijão de água até seu apartamento. De escada. A menina fica ali, em segurança, enquanto o pai faz seu trabalho. Enquanto isso, no térreo, a mãe de Semíramis está carregando os celulares de diversos moradores do prédio nos estabelecimentos que ainda tem energia. “A gente não tem eletricidade, mas a barbearia sim, o depósito também. São vários lá embaixo que nos ajudam.”

Lá embaixo, o carroceiro Severino dos Santos, 53, está descansando, depois de ter ajudado a carregar um caminhão com a mudança de um amigo. Ele, que sonha em morar nalguma favela. Se tivesse dinheiro, era para onde iria, agora que foi colocado para fora.  Morava de favor ali no Holiday há dez anos. Já morou dois anos na rua, quando chegou de Amaraji, na Zona da Mata, em busca de trabalho. “Vou voltar a dormir na praia”, lamenta. “Não consigo nem subir de novo no prédio. A carroça pode pesar uma tonelada. Mas é mais fácil carregar que subir essa rampa de novo.” 

"Veja se isso só em lugar de rico”, analisa a aposentada Noemia Carvalho, 78, moradora do sétimo andar. “Uma doméstica que mora no 16º para aqui antes de subir tudo, de escada, para saber se eu preciso de algo, para que ela leve ou traga de baixo. 

Sem Lugar

Bob Fernandes,
66, continua tranquilo em seu apartamento no 16º andar. As escadas não são problema. “Corro 15km por dia e durmo cedo, não preciso de eletricidade. Vou ficar aqui até que paguem o que o apartamento vale para que eu saia. Sei que não há risco. Há interesse na área do prédio, bem localizada e com vista para o mar”, opina. Holiday é o primeiro arranha-céu de Boa Viagem, projetado pelo modernista Delfim Amorim “Quando comprei, vi que tinha esse valor. Agora agem como se aqui não tivesse dono.” 

A Câmara de Vereadores do Recife abriu uma comissão para estudar o caso e, hoje, visita o Holiday. O deputado estadual Wanderson Florêncio se pronunciou: “São necessários R$ 300 mil para que energia seja ligada e mais de R$ 1 milhão para obras de infraestrutura. O imóvel é particular, mas o cenário é de interesse público.” 

A Celpe só restabelecerá o fornecimento de energia quando as correções elétricas necessárias forem promovidas. A Dircon realizou um cadastro voluntário dos moradores.

Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício Holiday
Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício HolidayFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício Holiday
Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício HolidayFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício Holiday
Cláudio Laureano, 70 anos, é morador do edifício HolidayFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Edifício Holiday
Edifício HolidayFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Edifício Holiday
Edifício HolidayFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

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