Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Abril é mês de luta para as mulheres
Abril é mês de luta para as mulheresFoto: Reprodução/Facebook/Instituto Geledés

Será que chegaremos a um tempo em que algumas datas serão comemoradas apenas pela sua importância histórica, não mais para serem relembradas pela atualidade, persistência ou ameaça de retorno dos motivos que as originaram?!?! Essa é uma pergunta que surge quando nos deparamos com um importante calendário de lutas, como o desses últimos dias de abril.

Mulheres negras contra o racismo

Uma das expressões mais vigorosas e instigantes no movimento brasileiro de mulheres dos últimos anos tem sido o movimento das mulheres negras, sejam elas feministas ou não. No último 19 de abril duas organizações que são pilares dos movimentos negros e dos movimentos feministas fizeram aniversário. No Nordeste do Brasil, em Salvador, o Odara – Instituto da Mulher Negra completou 8 anos de existência. No Sudeste, em São Paulo, o Geledés – Instituto da Mulher Negra** fez 30 anos.

O Odara, que foi criado com o objetivo central de “instituir um processo de rearticulação e mobilização das organizações de jovens, mulheres e lésbicas negras do Nordeste, para fortalecer a luta pelo combate ao racismo, sexismo e lesbofobia” é uma das organizações particularmente envolvidas na construção da Rede de Mulheres Negras do Nordeste - com expressão em Pernambuco - e da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras.

Celebrações do Geledés


O Geledés nasceu em 1988. É conhecido como uma das organizações que fundaram o moderno movimento negro do Brasil. O seu aniversário foi comemorado com uma série de debates com convidadas/os que fizeram uma análise da conjuntura a partir da retrospectiva desses 30 anos de história do país, abordando a ação dos movimentos sociais e do Estado brasileiro. Um dos debates focou nas políticas de educação, área de incidência priorizada pelo Instituto. O enfrentamento à violência contra as mulheres negras também fez parte da agenda de discussão.

A existência de organizações como o Geledés e o Odara é fundamental para a sustentação dos movimentos sociais. Entre outros motivos porque os apoiam e guarnecem quando necessário, contribuem para fortalecer suas pautas e instituem processos educativos para a formação de novas lideranças. Na relação com outros movimentos sociais, são elas também que fazem a crítica permanente e os convocam a repensarem as suas frentes e formas de atuação. Enquanto o racismo persistir, só podemos desejar que permaneçam vivas e fortes! Além de parabenizá-las pelas trajetórias robustas.


Odara - Instituto da Mulher Negra


Nem todo dia é Dia do Índio

O 19 de abril é também o Dia do Índio. Aprendemos isso quando crianças, na escola. Mas, a não ser pelo histórico de destruição e extermínio que a imprensa e as redes sociais costumam mostrar, sabemos tão pouco sobre eles e elas, não é verdade? A data está marcada, portanto, como de resistência dos povos negros e povos indígenas contra os dispositivos racistas e etnocidas contra os quais estamos todos e todas convocados/as a lutar.

Para quem tem um pouco mais tempo, gostaria de sugerir a leitura da aula pública “Os involuntários da pátria, realizada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no abril indígena de 2016, na Cinelândia, Rio de Janeiro. Uma aula-documento que mantem a sua atualidade, vigor e contundência.


 

'Os involuntários da Pátria', aula de Eduardo Viveiros De Castro

'Os involuntários da Pátria', aula de Eduardo Viveiros De Castro - Foto: Reprodução

Marielle Franco: Presente!


E para quem estará em Portugal neste 25 de abril, aniversário da Revolução dos Cravos, segue uma convocatória da União de Mulheres Alternativa e Resposta (Umar), que nos faz desejar estar ali representadas. A proposta é que uma Maré Feminista invada as manifestações que serão realizadas pelo aniversário da Revolução que pôs fim à ditadura Salazarista, como uma onda de contestação contra todas as discriminações que persistem em Portugal e no resto do mundo. Os pontos de encontro, às 14 horas, serão em Lisboa: na Marques de Pombal junto ao Hotel Fênix e no Porto: no Largo do Soares, em frente à Padaria Pão Fofo.



Marielle Franco era vereadora pelo PSOL no Rio

Marielle Franco era vereadora pelo PSOL no Rio - Foto: Reprodução/Facebook

Em tempo: o nome Maré Feminista é, conforme observação, “uma forma de homenagear Marielle Franco que se auto-apresentava como cria da Maré, nome da favela do Rio de Janeiro que viu crescer esta singular feminista e lutadora pelos direitos humanos”.

Finalizando, ofereço a vocês uma música que é um manifesto sobre a urgência da demarcação das terras indígenas: Demarcação Já! Confira o vídeo abaixo.




** Ambas organizações podem ser acompanhadas pelo facebook. O Geledés, que tem entre as suas linhas de ação a incidência no campo da comunicação, possui também um portal www.geledes.org.br que é uma fonte importante para aquelas pessoas que querem acompanhar o que acontece na diáspora africana. Os debates do seu aniversário de 30 anos, para quem tem interesse, podem ser aí acessados.

* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

 

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