Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Nora Cortin~as Avo Plaza de Mayo

Nora Cortinas Avo Plaza de Mayo - Crédito: Cortesia/ Custavo Cortabarria


O filho mais velho de Nelson Mandela** perguntou ao pai certa vez porque ele nunca estava à noite com a sua família, ao que ele respondeu que era porque havia milhões de outras crianças que precisavam dele. Impossível saber o que mais ele pensou a respeito. De tão naturalizado que é, pode ser que não tenha lhe passado pela cabeça que também era porque ele sabia que tinha alguém, a mãe dos seus filhos, que estaria com eles. À parte o ativismo político que, como foi o de Mandela contra o apartheid, pode beneficiar a todas as pessoas nos seus resultados, é mais raro encontrar organizações de homens que tenham como objetivo algum direito que venha a beneficiar concretamente seus filhos e filhas. Você conhece? Já as mulheres sim, conheço muitas que atuaram individualmente ou se organizaram com este objetivo.


As Madres de Plaza de Mayo talvez seja o grupo de mães e avós mais conhecido mundialmente. No ano seguinte ao início da ditadura militar na Argentina, em 30 de abril 1977, começaram a se reunir semanalmente em frente à Casa Rosada. O objetivo era pressionar por notícias de seus filhos/as e/ou netos/as desaparecidos/as. Jovens que se mobilizaram contra o regime e por isso foram sequestrados, detidos, torturados e mortos pelos militares. Quando esses jovens tinham filhos/as, muitos deles/as foram dados em adoção. Mães e avós se organizaram e passaram a exigir “memória, verdade e justiça” para filhos/as e netos/as. Lutavam por notícias, para que o Estado assumisse os seus crimes e para que os crimes cometidos não ficassem impunes. Muitas mortes foram confirmadas, netos/as foram reencontrados, mas os motivos das mobilizações ainda não foram totalmente alcançados, principalmente no que se refere à justiça. A isso se somam outras pautas, como a do aumento do desemprego no país, pelas quais continuam organizadas até os dias atuais.


Página das mães de Plaza de Mayo

Página das mães de Plaza de Mayo - Crédito: Reprodução


Documento da CIA publicado recentemente comprova que o regime militar aqui também autorizou a execução de opositores civis. Não que já não fosse sabido e denunciado, mas provas são sempre importantes. Talvez por isso nesse mês de maio circulou em algumas páginas do facebook um resgate de como a ditadura dilacerou a família Angel. Torturou com requintes de crueldade e matou Stuart. O mesmo com sua mulher Sônia, dois anos depois. A mãe de Stuart, Zuzu Angel, lutou até a sua morte - em um suspeito acidente de carro em 1976 - para reaver o corpo do filho e enterrar os seus restos mortais. Um filme sobre a vida de Zuzu Angel, produzido em 2006 com direção de Sérgio Rezende, está disponível no youtube.


Zuzu Angel

Zuzu Angel - Crédito: Divulgação



Também no Brasil as Mães de Maio, surgida em Santos há 12 anos atrás, é uma organização de mães e familiares de vítimas dos conflitos entre o Primeiro Comando da Capital – PCC e forças de segurança, que levaram à morte 60 policiais e cerca de 500 civis. Em todos esses anos não houve qualquer empenho da justiça em investigar o resultado do acerto de contas, que envolveu pessoas alheias a ele. Nessa hora o estereótipo: negro e pobre costuma falar mais alto na “escolha” das vítimas. As Mães de Maio também têm entre as suas pautas de luta “a memória, a verdade e a justiça” em relação ao massacre, a desmilitarização da polícia e o combate à violência Estatal. Aliás, como podemos perceber em todos esses casos citados aqui, o crime contra a população civil foi cometido por forças do Estado. Por isso também as pautas de luta são mais amplas. São mães que lutam não só pelos seus filhos e filhas. Querem romper com uma trajetória de violência que marca nossa história.


Marcha contra o genocídio negro

Marcha contra o genocídio negro - Crédito: EBC


Existem outras organizações com os mesmos objetivos em São Paulo, a exemplo das Mães da Zona Leste, Mães da Zona Sul, e em outros estados do Brasil. Essas organizações se somam numa luta dos movimentos negros e de mulheres negras contra o genocídio da juventude negra. Homens jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vitimas de mortes violentas no país. Segundo o Atlas da Violência de 2017, publicado pelo IPEA e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de cada 100 pessoas assassinadas 71 são negras. Para os jovens, é como se vivessem numa permanente situação de guerra. Para as mães é não saber nunca se seus filhos voltarão para casa.


Finalizo fazendo uma observação sobre rede social. Pude perceber um grande número de pessoas que falaram sobre suas mães homenageando-as. Reconhecendo nelas, no entanto, mulheres de “carne e osso”. Isto é: mulheres que estão no mundo, vivendo as suas vidas complexas, sem que se aproximem de um modelo exemplar e inatingível de maternidade. Viveram ou vivem como pessoas que, entre conflitos e contradições, também foram ou são mães. Compartilho uma dessas homenagens que me encantou e que ajuda a retratar o que observei. Trata-se da mãe da socióloga feminista Mary Garcia de Castro: Aurora, uma mulher que me pareceu ter sido sensacional!


Aurora

Aurora - Crédito: Mary Garcia Castro

13 de maio às 15:45 · 


"Todos cantam sua mãe também vou cantar a minha. Aurora que na minha vida auroreceu quando eu tinha 5 anos e ela foi me buscar em um orfanato em que me encerrou um pai general, que havia me sequestrado. Uma Aurora que para me achar foi vedete do Cassino da Urca, amante de figuries e que vendia as joias recebidas para pagar advogados e detetives para a filha encontrar.


Aurora que para ter a guarda da filha teve que casar com um homem de sobrenome famoso, já que o pai general também tinha sobrenome famoso e na “justiça” para ter a filha precisava mostrar que era do bem. Aurora que com muitos sacrifícios educou a filha e a matriculou nos melhores colégios do Rio.


Uma Aurora que quando gravida do meu irmão tinha no armário o retrato de Carlos Prestes e dizia “meu filho vai se chamar Carlos, quero um filho comunista!”. Aurora que quando eu fiz 14 anos me deu a coleção de livros de Jorge Amado e sugeriu que eu lesse com atenção “Subterrâneos da Liberdade”.


Uma Aurora que perdeu o filho Carlos, morto em um ‘bad trip”. Uma Aurora q se foi em águas, por cirrose. Aurora o filho, o irmão Carlos, não foi comunista. Mas sua filha é e hoje lhe homenageia lembrando às gargalhadas o que você me dizia quando lhe dava perfume ou panela no dia das mães:


“Oh Maryinha me dá uma boa cachaça e vamos juntas ouvir ‘Meu mundo caiu”.
Caiu não Aurora. Por sua memória e a de tantas mães com muitos muitas camaradas como você queria e o poeta Capinan vaticina “ainda viramos esse mundo em festa trabalho e pão”. Obrigada querida Aurora.


Em tempos de recrudescimento da violência na Palestina, ofereço a vocês uma música que é também uma manifestação pela paz. O movimento de palestinas e israelenses teve inicio em 2014. A marcha de outubro de 2017, envolveu cerca de 5.000 participantes numa mobilização de 2 semanas, finalizada em Jerusalém. O vídeo registra uma marcha anterior.



** Richard Stengel. Nelson Mandela 1918-2013 Portrait of an extraordinary man. UK: Virgin Book, 2010, p.229.


* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).



* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

 

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