Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Mulheres negras se mobilizam para ampliar presença na política
Mulheres negras se mobilizam para ampliar presença na políticaFoto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

O dia 25 de julho foi comemorado como o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e do Caribe. Instituído em 1992, no I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, no Brasil a data está identificada também a Teresa de Benguela. Veja a beleza de apresentação que a Bruna de Oliveira nos faz desta heroína!
Um marco importante para, como disse a Tia Má, registrar as especificidades das mulheres negras, a capacidade de superação e libertação das dores, a capacidade de seguir existindo numa sociedade que as quer aniquilar, cotidianamente. É também a data para celebrar uma história de superação.

O Movimento das Mulheres Negras tem sido o que de mais vibrante, perturbador e instigante está acontecendo nos últimos anos, nos movimentos de mulheres e feministas brasileiro. Transformar a dor em resistência e luta, não se deixar abater, está apenas na origem de uma atuação coletiva que tem mexido profundamente com as formas de organização social e política. Provocam todos os movimentos a repensarem suas formas de ver o mundo e suas práticas.




Há 6 anos a data abarca todo o mês de julho, no que ficou conhecido como o Julho das Pretas. Um tempo de reforçar a visibilidade e importância do que propõem. O mês tem sido marcado por inúmeras atividades que acontecem de ponta a ponta do país, demonstrando o vigor deste ativismo: debates, marchas, shows e outras manifestações culturais e artísticas, lançamentos de publicações etc etc apontam para a necessidade de enfrentar e lutar contra o racismo e o sexismo. Apresentam novas leituras da realidade a partir de uma população que teve nos últimos séculos as expressões da sua existência permanente e brutalmente tolhidas. Um conjunto de ações que não deixam dúvidas sobre a força de um movimento que nos últimos 30 anos vem ocupando cada vez mais espaços, e das mulheres que o constroem.

Julho foi também o mês de gritar mais alto: Quem matou e quem mandou matar Marielle Franco? A morte de Marielle simboliza hoje a forma como jovens mulheres e homens negros estão sendo exterminados, com o consentimento e grande parte das vezes, pelas próprias mãos do Estado brasileiro. E da sociedade, que não pode aceitar, se transformando em cúmplice, que isso aconteça. Mortes que não podem ficar impunes e que precisam ter um fim.

Dia da Mulher Negra - Enegrecer

Dia da Mulher Negra - Enegrecer - Foto: Divulgação

Outra ausência, que é muito sentida e permanentemente lembrada, foi a da ativista gaúcha-baiana Luísa Bairros. Luísa foi professora universitária, ministra, uma intelectual cujos textos são referência fundamental do pensamento negro deste país. Marielle e Luísa, existências valiosas, mulheres exemplares que, por motivos distintos, nos deixaram muito cedo. Seus legados seguem como força viva!

Vietnam
Em viagem a Hanói, o primeiro momento foi para conhecer o Museu da Mulher Vietnamita. Um prédio todo dedicado a elas, cada andar abordando aspectos distintos das suas vidas: o matrimônio, o trabalho, vestimentas, as deusas… Logo no saguão uma estátua em homenagem a elas, de estética socialista, robusta, pouco condizente com as mulheres locais que são geralmente bem magras e elegantes.

Devo confessar que senti um certo incômodo com essa imagem tradicional de mulher, persistente também em outras exposições do Museu, que reforçava a importância da maternidade e da mulher como alicerce da família, em função dos outros. Mas, felizmente, havia aquelas mostras que recuperavam uma identidade da mulher como produtora, trabalhadora, militante... Um andar para registro das mulheres que enfrentaram invasões. O país sofreu muitas. Bravas, que lutaram na Guerra Americana - como a Guerra do Vietnam é chamada por aqui - contra os Estados Unidos.

As mulheres vietnamitas estão em todas as ruas da cidade, trabalhando muito, normalmente em atividades ligadas à produção de alimentos. Todo mundo come na rua, o dia todo! Não tem sábado, não tem domingo. Todos os dias são dias de trabalho e ele começa muito cedo, sem ter hora para terminar. Muitas jovens trabalhando nos restaurantes e cafés como garçonetes. Aliás, a juventude desse país encantou pela alegria com que está em toda parte. Seja trabalhando ou se divertindo, jovens exalam uma vivacidade, aliada a uma espécie de tranquilidade, que fazem pensar que essa é uma sociedade que pensa em como incluí-los/as.

No Vietnam existem políticas para promover a igualdade de gênero, existem leis para coibir a violência e a discriminação contra as mulheres. O aborto é permitido desde a década de 60, oferecido pelo Estado, dentro de uma política de controle populacional. Aos casais é permitido 2 filhos (Ordenança Demográfica, restabelecida em 2008). O fato de que as taxas de aborto são maiores quando se identifica o sexo do feto como sendo de mulher fez com que fosse colocado por lei um limite para a ultrassonografia durante a gravidez. A preferencia por gerar homens costuma estar relacionada ao menor valor que é dado às mulheres. A ancestralidade é transmitida apenas para os filhos homens. Mas essas são apenas leituras e impressões iniciais, rápidas. Numa viagem como esta o tempo para ver e sentir tem sido o prioritário. 


Para terminar, ofereço a vocês a música Negra, com Marina Íris:


 
* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas

Mulheres negras se mobilizam para ampliar presença na política
Mulheres negras se mobilizam para ampliar presença na políticaFoto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil
Saguão Museu da Mulher Vietnamita
Saguão Museu da Mulher VietnamitaFoto: Carla Batista
Mulheres que foram à guerra
Mulheres que foram à guerraFoto: Carla Batista
Vendedora de jaca na rua
Vendedora de jaca na ruaFoto: Carla Batista
Vendedoras de comida na rua, Hanói
Vendedoras de comida na rua, HanóiFoto: Carla Batista
Vendedora de souvenir com criança
Vendedora de souvenir com criançaFoto: Carla Batista

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