Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Vista aérea do ato "Mulheres contra Bolsonaro" no Recife
Vista aérea do ato "Mulheres contra Bolsonaro" no RecifeFoto: Arthur de Souza / Folha de Pernambuco

Vivemos uma semana que ficou marcada pelas lindas e grandes manifestações convocadas pelas mulheres em diversas cidades do país e do mundo. O #elenão posicionou contra determinada candidatura que se coloca em oposição à democracia e aos direitos humanos. Explicitamente machista, antifeminista, racista, expressão contrária a outras formas de existências e direitos. Campanha eleitoral conformada pela defesa da discriminação e violências, inclusive na forma como se apresenta visualmente.

Chegamos às vésperas do primeiro turno das eleições.

Se muito se realçou o fato de que estamos expostos/as a um leque abrangente de candidaturas e projetos a serem avaliadas/os, o contexto é de arbítrio, o que reconfigura cada uma delas e a importância de cada voto. A conjuntura é de recrudescimento das forças conservadoras que atuam contra todos/as aqueles/as que almejam a transformação das estruturas sociais. O que é o caso das mulheres que lutam de forma organizada em movimentos feministas e antirracistas. E de todas as pessoas que almejam uma democracia radical.

Uma das formas de negar e rechaçar as pautas destes movimentos se faz através da desqualificação dos direitos que são por eles defendidos. Isto inclui a propagação de falsas informações.

Ingrid Leão**, doutora e mestra em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da USP, integrante do Comitê da América Latina e do Caribe pela Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM/Brasil), em mais uma contribuição com esta coluna, nos fala um pouco mais a respeito. Intercalamos pequenos videos da campanha Gênero e Educação à coluna. Assista, pense a respeito.

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Carla Batista

"Ideologia de gênero": isca para ganhar votos no Brasil
Por Ingrid Leão

Abaixo à ideologia de gênero, repúdio ao Kit-Gay e uma profusão de mensagens confusas sobre sexualidade das crianças e jovens e imposição de sexo para crianças alimentam um clima de disputa moral no Brasil. E essas disputas se acirram quando o assunto é busca de votos. Porém, há algo a mais no ar. Se durante muitas eleições as perguntas foram quem é a favor do divórcio, contra o aborto ou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, hoje as principais disputas se apresentam no campo da educação e da segurança pública, com o menu “ideologia de gênero”.

Educação por conta de toda a negação sobre conteúdos que afirmem a igualdade de gênero na escola, negação da diversidade de expressões sexuais existentes na sociedade ou da recusa a uma abordagem da sexualidade no sentido de entender corpos e emoções. Esses aspectos da igualdade de gênero têm uma relação forte com as violências de gênero: Como enfrentar o estupro e o abuso sexual infantil sem falar da autonomia e respeito sobre o seu próprio corpo e os limites do corpo do outro? Como afirmar a não-violência na escola e fora dela quando se está diante de corpos e pessoas não heteronormativas? Como previnir o bullying contra meninas e meninos? Como afirmar que a escolha de uma cor de roupa ou tipo de brincadeira ou brinquedo não define o seu valor no mundo? Nem determina tudo o que você é ou vai ser? Como ressignificar os significados que os brinquedos podem ter no processo de formação de meninos e meninas?



Todas essas questões já encontram na igualdade de gênero uma construção de respostas, de acordo com pesquisas baseadas em experiências de vidas que produzem elementos e conhecimentos sobre a violência de gênero e políticas educacionais. Qual é o medo que impede de se debruçar sobre esta literatura, com olhar crítico, para conhecê-la e aprofundá-la? Qual é o medo que leva a reagir a ela de forma tão peremptória e sectária, negando-a a princípio?

Ao invés de avançarmos no sentido da prevenção da violência, em casa, na escola e nos espaços públicos, avançar na proposição de ações a implementar, o Brasil passou a denominar essas ações de “ideologia de gênero” para afasta-se do problema violência contra mulheres, meninas e LGBTs. Para negar a igualdade entre os seres humanos e possibilidades concretas de sua realização.



A incoerência se dá sob a crença de que existe "uma ideologia de gênero" a ameaçar as famílias e a impor uma sexualidade precoce e "desviante" para as crianças. Essa conversa surgiu por aqui em 2011 com a suspensão do Programa Escola Sem Homofobia, conhecido desonestamente como Kit-Gay para sugerir que ele seria um “passo a passo” para ser gay, lésbica ou trans. Se expandiu com a votação do Plano Nacional de Educação, ganhou força nos debates entre parlamentares em 2014. A expressão avança até projetos de lei que buscam “caçar doutrinadores” na sala de aula, como uma forma de ameaçar professores/as que ousem a tratar do tema nas escolas. E tem centralidade para algumas candidaturas na disputa eleitoral de 2018.

Quem explica o que é ideologia de gênero? Existem as teses para alimentar o pânico das famílias: “é ensinar sexo às crianças”, “é ensinar a ser gay desde menino”, é “a escola interferindo no papel que é da família”. Tais afirmativas são a retomada do medo para as famílias e ataca diretamente a responsabilidade de mães e pais com suas crianças. Quem seria contra a esse terrível alerta? Assim, todas as expressões estão mais próximas a confundir e a se configurarem como uma isca de votos, do que de uma preocupação com uma educação para a não violência contra as pessoas. Se recusamos a igualdade de gênero nas escolas, o que nos resta?



Desta forma a corrida eleitoral afirma mais uma questão: a de separar as desigualdades de gênero da agenda de debates e propostas sobre educação e sobre violência, temas de grande disputa nos planos de governos entre candidatos e candidatas. Porque é tema que deve ser negado, quando apresentado de antemão de forma negativa como “ideologia de gênero”. Tema a ser recusado e afastadas aquelas candidaturas que o abordam de uma outra perspectiva, a do direito, da democracia, do respeito e da não violência.

No Brasil, um país de muitas desigualdades que reforçam violências e discriminações, crescer uma movimentação pela negação do enfrentamento das desigualdades de gênero, sob a denominação pejorativa “ideologia de gênero” é colocar a sociedade também na negação do dever do Estado na afirmação de uma vida livre de violências. Todos/as perdem, mas com certeza, alguns ganham votos.

** Ingrid Leão é co-autora do livro Gênero e Educação - Fortalecendo as Políticas Educacionais (2016). Disponível neste link

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo produzido pelos colunistas.

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