Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Trabalhos escolares sobre gênero da Hout Bay International School, na África do Sul
Trabalhos escolares sobre gênero da Hout Bay International School, na África do SulFoto: Chet M. Turner/Divulgação

No último dia 7, a Datafolha publicou o resultado de uma pesquisa onde foram ouvidas 2.077 pessoas. Entre elas, 54% aprova que educação sexual seja tema trabalhado nas salas de aula. Para as pessoas com ensino superior esse número sobe para 63%.

Isso me remeteu a uma visita familiar feita há alguns anos, quando meu sobrinho - na época com 13/14 anos - pesquisava para um trabalho escolar sobre o aborto no Brasil. Achei interessante que o tema tivesse sido pautado. Ele encontrou um vídeo no YouTube. Era muito bem produzido e mostrava o posicionamento das feministas, seguido do daquelas pessoas que são contrárias ao direito que elas defendem. Constatada a evidente parcialidade da mensagem, disse a ele que se quisesse, e como este era um tema com o qual eu trabalhava e conhecia bem, poderia ir até a escola fazer um debate a respeito. Ele consultou diretora e professora, que me chamaram para um diálogo. Eliminadas as dúvidas e receios, colocaram condições e pediram que a conversa fosse feita com todas as turmas daquela série. Combinamos dividir as 3 turmas em duas e usar o tempo de duas aulas de 45 minutos para cada grupo, o que daria um pouco mais de tempo para trabalhar o tema.

Recorri à memória da experiência com trabalhos educativos e palestras com mulheres, profissionais de saúde, jovens, professores/as… Para estes/as últimos organizamos, no tempo em que trabalhei no SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, um processo de formação que resultou, entre materiais produzidos, cartilhas e folhetos. Uma das fontes foram os Parâmetros Curriculares Nacionais (https://cptstatic.s3.amazonaws.com/pdf/cpt/pcn/volume-10-6-temas-transversais-orientacao-sexual.pdf ) que merecem ser lidos por pais, mães e educadores/as.

Preparei antes um tipo de oficina que se adequasse ao espaço, à quantidade de pessoas, ao tempo, organizando atividades que poderiam ser modificadas de acordo com a evolução do debate. Feitas as apresentações, pedi que falassem ou escrevessem em papeizinhos as dúvidas e o que gostariam que abordássemos. O aborto não apareceu em nenhum momento. De forma geral as questões sobre sexualidade predominavam. Muitas dúvidas sobre desejos e conflitos entre esses e preconceitos difundidos socialmente.

Começamos fazendo um pequeno censo familiar. Perguntei: quem mora com pai, mãe, irmãos/as? E daí segui para outras formas de família, o que era a grande maioria de casos. Cheguei a perguntar: quem tem dois pais? Risos e questionamentos: o que quer dizer isso!? Respondi: quem mora com a avó/ô e mãe/pai, quem mora com a tia/tio e mãe/pai, quem tem duas mães… Famílias que existem.

Fiz outra pequena enquete, conhecida entre educadores/as, trabalhando primeiras ideias que vêm à cabeça quando se fala em homem e em mulher. A proposta é demonstrar o que é construção social e o que está inicialmente dado pela natureza. Uma das respostas que se destacou entre garotos era “puta!” se referindo às mulheres. Depois de listar as palavras, começa-se a trabalhar cada uma, questionando porque elas se referem só a um ou outro sexo, se afinal – normalmente – mulheres e homens podem, por exemplo, trabalhar como profissionais do sexo? São fortes? Choram? Deixam o cabelo crescer? 

Na sequência, me remeti às dúvidas, organizando-as em blocos de modo que fosse possível – brincando e ouvindo – abranger o maior número de questões possíveis. O tempo era limitado e a participação animada e intensa. Ao sair da sala, fui seguida por várias alunas e alunos que tinham dúvidas que não ousaram colocar. Os meninos, sobre o fantasma da homossexualidade. Uma garota grávida, por exemplo, queria saber se na sua condição poderia ter relações sexuais. Outra, queria saber sobre sexo anal. Eu procurei, no curto tempo da resposta e querendo tirar dela qualquer culpa, chamar a atenção pra si mesma - seu prazer e o cuidado com a própria saúde: se é uma coisa da qual você gosta, não há impedimentos. Mas, não faça apenas para agradar à outra pessoa. E, tenha muito cuidado com as doenças sexualmente transmissíveis. Use preservativo. Muito mais poderia ser desenvolvido como cuidado e respeito pessoal. Como se sabe esta é uma prática muitas vezes utilizada nas brincadeiras sexuais para evitar que as meninas, daquela idade, “percam a virgindade”.

Mas o tempo foi muito curto para a ansiedade e necessidades contidas. Fiquei pensando como adoraria passar o ano trabalhando todas as dúvidas com aquelas 3 turmas, da forma como poderia ser. Constatei mais uma vez a carência que jovens tinham a esse respeito. Como poderiam ter uma experiência da sexualidade sem culpas, de forma mais saudável, prazeirosa, afetuosa, com relações mais igualitárias, se pudessem falar, estudar e descobrir, ao invés de serem remetidos/as ao silêncio ou aos preconceitos. Me lembro sempre o importante que foi para mim, quando jovem, ter nas mãos o livro Conversando sobre Sexo, da Marta Suplicy. Quantas dúvidas ele me tirou! Depois, na minha formação de educadora, pude conhecer melhor a ECOS Comunicação e Sexualidade (www.ecos.org.br), organização da qual ela foi uma das fundadoras, e o seu importante trabalho na educação sexual, pioneiro em escolas do Brasil.

Professoras e diretora ficaram na sala para acompanhar a evolução do meu diálogo com as turmas. Eu procurava sempre olhar para elas para sentir os meus encaminhamentos e forma de abordagem. Elas conheciam as regras da escola e as turmas, não queria estar em desacordo. Ficaram gratas, porque talvez não eram temas que se sentissem seguras para trabalhar. Pouco depois eu atuei, para a Universidade Federal da Bahia, em um programa de formação de professores/as sobre gênero e diversidade nas escolas. O programa foi implementado pela antiga Secretaria de Políticas para as Mulheres SPM/PR, cujas integrantes reconheciam o papel do Estado na prevenção de gravidez precoce e indesejada, das DSTs e AIDS, da violência contra a mulher, da homofobia… A experiência confirmou a necessidade que professores/as também possuem de debaterem estes temas.

Eu não levei nada. Estava tudo lá, pulsando. Deu-se apenas a oportunidade de expressão. Infelizmente, estamos diante de uma “nova era”, aonde o que é da vida das pessoas e pode fazer com elas sejam mais felizes e saudáveis, tenta-se negar, criando nomes e informações falsas. Ou simplesmente, empurrando para baixo do tapete.

As duas fotos se referem a trabalhos escolares sobre gênero da Hout Bay International School, na África do Sul. Vi em um restaurante o folheto (abaixo) da exposição e fui visitá-la. Infelizmente ainda não tinha sido organizada. Mas um dos alunos, Chet, me enviou gentilmente estas duas fotos como amostra.

* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas

 

Trabalhos escolares sobre gênero da Hout Bay International School, na África do Sul
Trabalhos escolares sobre gênero da Hout Bay International School, na África do SulFoto: Chet M. Turner/Divulgação
Trabalho escolar sobre gênero da Hout Bay International School, na África do Sul
Trabalho escolar sobre gênero da Hout Bay International School, na África do SulFoto: Hugo L. Kritzinger/Divulgação
Folheto da Exposição
Folheto da ExposiçãoFoto: Divulgação

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