Mulheres em Movimento

Carla Batista

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Óleo sobre tela The problem we all live with (1964), de Norman Rockwell
Óleo sobre tela The problem we all live with (1964), de Norman RockwellFoto: reprodução

Andréa Gati morou até recentemente em Nova York. Realizava um doutorado sanduíche em arquitetura na Columbia University, que fica no Harlem. O bairro abriga desde os anos 1920 a maior comunidade negra de NY. No seu caminho para o Campus, lhe chamaram a atenção as mochilas que, especialmente as meninas negras, usavam. É da Andréa que vem a colaboração para Mulheres em Movimento.

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Carla Batista


Há ainda um fardo a se carregar: mochilas pelo empoderamento

Andréa Gati**

Blended Design é a empresa responsável pela criação das mochilas triplo “E”. Fundada em 2014, por uma mulher, Casey Kelley, formada em Marketing, tem sua sede na cidade de Jacksonville, a mais populosa do estado da Flórida. Em 2017 iniciou a produção de mochilas com imagens de crianças negras, a partir de uma demanda do seu próprio filho. Ele queria uma mochila que o representasse, não aquelas de super-heróis. Ela resolveu criar uma linha para preencher esse vazio. Com o lema do triplo “E”: Elevar, Empoderar e Educar, que se refere tanto à autoimagem da criança negra como à construção dessa imagem para os não-negros, surgiu então a linha “1954”.

Acreditando que a educação é de suma importância para romper o ciclo da pobreza e o aprisionamento da comunidade afrodescendente, o site da empresa apresenta como seu objetivo principal o de incentivar a afirmação das crianças negras fazendo-as acreditar nas suas capacidades. Considerando que são mochilas escolares, o lema impresso nas bolsas “You can do anything” (você pode fazer qualquer coisa, ou você pode fazer o que quiser) remete à questão de suas escolhas profissionais. Vale ressaltar que há uma atenção especial dedicada à temática profissional nas mochilas das meninas. Cientistas ou professoras... Ilustram a preocupação em desconstruir limites para campos de conhecimento.

Criança negra

Imagem: reprodução

A marca claramente se popularizou entre as crianças. E de forma eficaz focou também em estudantes do ensino fundamental, apostando em potenciais estudantes universitários, aqueles/as já conscientizados e positivos a respeito das suas capacidades. Para universitários/as de “primeira geração” a empresa tem uma política de repassar um percentual do valor de cada mochila vendida para ajudar a obter seu diploma:

“Queremos ajudá-los a percorrer o caminho para um curso de 4 anos. Queremos mudar a pergunta de "você está indo para a faculdade?" (espanto) para "qual faculdade você vai?" (naturalidade). Queremos redefinir o status quo.”

O preço médio de uma mochila é 40 dólares. Em 2017, primeiro ano, foram vendidas 6.300 mochilas. A marca se compromete a oferecer a alunos/as menos favorecidos mochilas gratuitas, contando para isso com a ajuda de organizações comunitárias locais para fazer o cadastramento.

Linha 1954

A origem do nome dado à linha de mochilas data de 1954, quando a Suprema Corte americana declarou que a segregação de crianças baseada na cor da pele era inconstitucional, no caso conhecido como Brown versus Board of Education of Topeka. Este caso reverteu a decisão tomada no caso Plessy versus Ferguson, em 1896, quase 60 anos antes, no qual a segregação havia sido aprovada. 6 anos depois, em 1960, Ruby Nell Bridges, negra, aos 6 anos de idade, iniciou estudos em uma escola primária tradicionalmente exclusiva para brancos.

A ideia da matricula surgiu de uma estratégia política demandada pela Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP). A mãe de Ruby teve um papel chave, pois foi ela quem convenceu o pai a concordar com a iniciativa, enfatizando que o gesto seria necessário para abrir caminho para todas as crianças afro-americanas que viriam após. Mesmo com a lei aprovada para vigorar em todos os estados americanos, muito foi feito para dificultar tal acesso. As dificuldades começaram com a imposição de um teste para ingressar na escola. Apenas seis crianças negras foram aprovadas.

Ruby foi a única a passar no sul do país. Várias manobras foram tentadas para driblar a ordem da Suprema Corte, resultando no retardamento do início das aulas para Ruby, que finalmente em novembro, após 3 meses, pode iniciar seus estudos.

Criança negra

Foto: reprodução

Em 14 de novembro de 1960, por causa das ameaças de violência contra Ruby, quatro agentes federais levaram a menina e sua mãe para a escola. Quando eles chegaram havia uma multidão aguardando-as, gritando insultos e atirando objetos. Anos depois, em entrevista, Ruby declarou que na hora ela pensou que era a tradicional festa de carnaval da cidade. Pais ameaçaram tirar seus filhos da escola, professores se recusaram a dar aula para ela. Apenas um professor aceitou ensina-la, sua turma se restringiu a Ruby e mais um aluno.

Ainda hoje estudantes negros/as americanos têm se esforçado para superar os anos de tratamento desigual. No Brasil, a situação não é diferente. Analisando as populações dos 2 países, considerando apenas negros/as e brancos/as temos os seguintes dados: Estados Unidos: Brancos - 75,1%, Afro-americanos - 12,3%. No Brasil3: brancos - 44,2%, pessoas autodeclaradas de pardos e pretos somam 53,3%. Ou seja, num país como os Estados Unidos, cujo percentual de afro-americanos não chega a 13% existem iniciativas e ações contundentes e disseminadas nos diversos setores em prol da extinção do preconceito, apesar de ainda haver um percurso a ser trilhado.

Ações pontuais, conforme aqui apresentadas, são muito importantes como iniciativas de valorização para a desconstrução social da imagem do negro, assim como a da mulher, no entanto, não são suficientes para romper essas questões de fundamentos históricos. Para reverter este quadro ressaltamos a importância de políticas públicas de ações afirmativas, como por exemplo, as cotas no ensino público. Às pessoas que são contrarias, fica o alerta: foram anos de obstrução, que comprometeram gerações de pessoas. Há uma dívida que é impagável!

** bolsista da Capes/PDSE/ Processo nº 88881.188338/2018-01.

*Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

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