Patrícia Raposo, editora chefe da Folha de Pernambuco
Patrícia Raposo, editora chefe da Folha de PernambucoFoto: Folha de Pernambuco

A fome destrói. A fome constrói. Solano Trindade, nascido no Recife em 1908, construiu um belíssimo poema sobre a fome, aquela que destrói. “Tem gente com fome”, o poema, foi publicado no livro Vida Simples, que em 1944 foi apreendido, levando seu autor à prisão. Esse artista negro e militante, hoje esquecido, me veio à mente porque, assim como ele, tenho percebido que tem gente com fome.

Outro dia, no supermercado, um homem magro e humilde cruzou meu caminho usando roupas surradas. Percebi que ele destoava dos demais clientes e segui em frente pensando: ele está com fome. Mais adiante, o mesmo homem surgiu na minha frente com uma cesta básica nas mãos e me abordou: “Estou passando fome”. Não havia como recusar, a fome estava nos olhos dele. Combinei a entrega do lado de fora, a pedido dele, porque os fiscais não o queriam por lá. “Eles nos humilham”, me revelou cabisbaixo.

Segui com minhas compras sentindo uma tristeza terrível e uma culpa massacrante pela omissão social. Afinal, minha própria mãe já havia me alertado: “Patrícia, tem muita gente passando fome”. Ela disse isso com a propriedade de uma pessoa que vem fazendo trabalho social na igreja que frequenta. E lembro dos versos do poeta:

“Trem sujo da Leopoldina
correndo, correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome”

Mais tarde, já na redação desta Folha de Pernambuco, decidi que estava na hora de investigar o quanto a fome cresceu entre nós nestes últimos meses de desemprego, de crises econômica, política e moral. Os repórteres Tatiana Notaro (reportagem) e Rafael Furtado (foto) caíram em campo. Foram quase três semanas de entrevistas. Ao ver o resultado, que é a capa da edição de fim de semana do jornal Folha Mais, os versos de Solano Trindade voltaram à minha mente:

“Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer”

E no País dos contrastes, onde uns passam fome, outros não param de comer. No Congresso Nacional, sob o argumento de uma Reforma Política, nossos nobres deputados aprovaram, na Comissão Especial da Reforma Política, o “Fundo para a Democracia”, cujo objetivo não é promover democracia alguma, muito menos levar comida a quem tem fome. O dinheiro visa exclusivamente financiar suas campanhas eleitorais. O valor? R$ 3,6 bilhões. No caderno Panorama da Folha Mais confira que, se por um lado o fundo tem volume robusto, por outro, serviços essenciais à população carecem de verba. E os versos do poeta me retornam:

“Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu”

No vídeo abaixo, publicado pelo Geledés - Instituto da Mulher Negra, a artista plástica Raquel Solano, filha do poeta, declama os versos. Confira no vídeo abaixo:


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