Well Leal foi um dos alunos ameaçados através de carta, por divergência política
Well Leal foi um dos alunos ameaçados através de carta, por divergência políticaFoto: Anderson Steven/Folha de Pernambuco

A Universidade de Pernambuco (UPE) confirmou, quinta-feira, ter recebido ameaças com texto de intolerância política no seu campus da Mata Norte. Intitulado de “A doutrinação vai acabar. É o mito. Ustra vive”, o texto foi fixado em quadros de avisos da unidade. O documento afirma que todos os docentes serão demitidos e que o Espaço Paulo Freire teria que mudar de nome para coronel [Brilhante] Ustra, reconhecido como torturador na ditadura militar (1964-1985). O texto finaliza com o aviso: “Vai ter limpeza dos comunistas na UPE”. A assessoria da instituição afirmou, por nota, que “já está tomando as providências judiciais cabíveis”.

O Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal já estão investigando ameaças feitas a professores e alunos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) a partir de uma carta com texto de intolerância política deixado em alguns pontos do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (Cefich). Eles confirmaram ontem ter recebido a representação da UFPE, solicitando a apuração. O MPF informou que, mesmo antes do recebimento, já havia tomado conhecimento e instaurado procedimento para apurar o ocorrido. A PF declarou que não comenta casos em investigação.

Na carta, alunos e professores são chamados de “veados”, “feminazis”, “invasores”, “prostitutas”, “degenerados” e “defensores de travecos”. O autor, que não se identifica, afirma ainda que “doutrinadores esquerdistas serão banidos em 2019”.

Mestre em sociologia e estudante de ciências sociais, Well Leal, de 28 anos é um dos ameaçados na carta. No texto, o autor se refere a ele como “comunista” e “invasor” e faz insultos homofóbicos. Para o Well Leal, a carta pretende fazer com que as pessoas que debatem questões de minorias e a segurança delas se sintam intimidadas e tenham receio de continuar suas ações. “Acho que aquela carta tem um teor que beira o ridículo, a ignorância mais primária possível”, disse. “Mas o fato de ela ser absurda não significa que não haja seriedade no seu tom de ameaça. Assim, eu acho que ela deve ser tratada como tal”, afirmou. “Ainda que as pessoas achem bizarro tudo aquilo, eu acho que a forma de tratamento deve ser essa.”

Conselheiro LGBT no Estado de Pernambuco há um ano e conselheiro de juventude da Cidade do Recife há oito meses, o estudante diz que esse tipo de ameaça ou chacota via internet são frequentes. Porém, o que diferencia o documento é que “ele é endereçado a mim e a outras pessoas, inclusive grande parte delas pesquisadoras do debate de gênero, com trabalhos muito sérios que envolvem a segurança. São coisas que a gente fica estarrecido pelo nível absurdo da situação”, declarou.

“Eu tenho certeza que todo mundo que está incluído naquela carta vai continuar com uma posição coerente. Elas não serão intimidadas em momento algum. Por mais que nós estejamos sentindo medo no momento, o medo faz parte da vida, e a coragem é o que sempre nos moveu a debater sobre este tipo de coisa”, disse Well Leal. “Apesar de sentir medo, não vamos nos deixar abalar por isso e continuaremos dando aula, estudando, fazendo pesquisas e dizendo o que pensamos da politica do País”, reitera.

Por meio de nota divulgada nesta sexta-feira (9), o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) prestou solidariedade aos professores e estudantes da UPE e da UFPE, "repudiando qualquer discurso de ódio e de violência pregados por grupos isolados e extremistas".

Confira a nota na íntegra:

O Sintepe (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco) vem publicamente repudiar a difusão de panfletos no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, e no campus da Universidade de Pernambuco (UPE), em Nazaré da Mata, tanto pela forma anônima, quanto pelo seu conteúdo que dissemina o ódio e apregoa preconceitos que, em um Estado Democrático de Direito, não são mais aceitos, pois trazem em seu bojo posições totalitárias e contrárias à liberdade e ao senso crítico.

A gravidade do conteúdo ocorre, principalmente, porque os autores difundiram mensagens de ódio e morte por simplesmente discordar de ideias de determinados professores e professoras.

O Sintepe presta sua total solidariedade a esses profissionais da educação e aos estudantes das duas universidades, repudiando qualquer discurso de ódio e de violência pregados por grupos isolados e extremistas. Somos à favor da liberdade de expressão, da liberdade de cátedra e da livre circulação de ideias.

Portanto, o Sintepe coloca-se à disposição para lutar em favor de toda a comunidade acadêmica e estudantil. A universidade é o espaço, por excelência, do debate de ideias, da convivência e do pensamento livre. Nenhum panfleto nem qualquer ato de intolerância vão nos assustar ou fazer-nos calar a voz. Estamos mais juntos e juntas que nunca. Ninguém solta a mão de ninguém.

A Direção do Sintepe

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