Rute Soares passou por dois transplantes de rim e celebra a vida sem hemodialise
Rute Soares passou por dois transplantes de rim e celebra a vida sem hemodialiseFoto: Jose Britto

Pernambuco é o segundo estado do Brasil no ranking de transplante de órgãos sólidos (coração, fígado, rim e pâncreas), segundo o levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Transplantes e Órgãos (ABTO). Com a taxa de 69,2% por milhão de habitante, o Estado ficou atrás apenas do Paraná, que alcançou a taxa de 90.9%. Ainda assim, se avaliado a conjuntura nacional, o número de transplantes de órgãos cresceu abaixo do esperado. Em 2017, foram computados 3.415 doadores efetivos, enquanto em 2018 esse quantitativo foi de 3.531 – o que significa um aumento de 2,4% em um ano.

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De acordo com a Central de Transplante de Pernambuco (CT-PE), os índices obtidos no Estado tem sido resultado do trabalho contínuo de conscientização da população sobre a importância da doação de órgãos e da capacitação das equipes captadoras e transplantadoras. “Nós conseguimos organizar a logística para receber órgão de outros estados, que não fazem certos tipos de transplante. O que amplia nossa capacidade”, afirma a coordenadora do CT-PE, Noemy Gomes.

No entanto, Noemy ressalta que mesmo com uma estrutura de excelência, o mais importante é o “sim” das famílias. O estudo da ABTO também mostrou que o número de famílias que não autorizam a doação de órgãos cresceu de 42% para 43% no período de um ano. Todos esses dados são traduzidos nas filas de espera, que também tiveram aumento, são mais de 33 mil pessoas em todo o País.

Em Pernambuco, 868 pacientes aguardam por um rim e nove esperam por rim/pâncreas, por exemplo.  Mas, em contrapartida, o Estado também ocupa o segundo lugar em procedimentos renais por milhão de pessoas. Nos últimos dois anos, houve um aumento de 15% nos procedimentos, enquanto dados gerais do País, foi registrado uma leve queda de - 0,15%.

“Temos muito mais pacientes na fila de rim do que de coração e fígado. Existe uma diferença para isso, já que na realidade estamos falando de uma doença, a insuficiência renal crônica, em que há duas formas de tratamento: a diálise e o transplante”, explica o responsável pela Unidade Geral de Transplante (UGT) do Imip, o médico Amaro Medeiros.

“Como o transplante de coração e fígado, não tem a diálise, que manteria o paciente vivo para que ele pudesse esperar mais até o transplante, muitos acabam falecendo antes de conseguir o órgão”, conclui. O transplante de rim também é feito pelo Hospital Português, que faz o procedimento duplo de rim/fígado, e o Hospital das Clínicas.

Além de todo trabalho desenvolvido pela Central de Transplante de Pernambuco junto aos hospitais aptos para o procedimento, outro ponto que tem minimizado a fila de espera, é a o sistema vitual Epivx. Criado em parceria com a Universidade Federal do Piauí, o sistema revela em até meia hora o resultado do exame cross-match – em que é misturado o sangue do receptor e do doador para ver se há possibilidade de rejeição nas primeiras horas pós-transplante.

“Nosso estado é o único a utilizar o exame de forma virtual, normalmente eu levaria quatro horas para obter o resultado. Então eu ganho tempo. Ontem (quarta-feira), recebemos uma doação do Hospital da Restauração, de um rim, fizemos o HLA para saber se havia compatibilidade. Às 22h recebemos o resultado do cross-match e as 23h foi assinado o protocolo para o transplante. Comuniquei ao paciente que estava na fila, que é de Maceió, e hoje ele fará a cirurgia”, disse Medeiros.

SOBREVIVENDO
De um lado o sorriso da dona de casa Rute Soares Souto, 50 anos, que passou por um transplante de rim em 2015, do outro, o olhar de esperança do agricultor Charles Jesuíno dos Santos, 30 anos, em encontrar um doador compatível. Essas histórias se cruzam diariamente entre os corredores Imip.

A busca pela qualidade de vida, sempre motivou dona Rute. Ela tem três filhos, e já havia passado por um transplante, mas o rim parou de funcionar. Entrou novamente para a lista de espera e sua fé não deixou com que as esperanças se perdessem. “Muitas pessoas acreditam que ao fazer o transplante, o risco de morrer é maior. Então na primeira vez eu tive muito medo. Mas depois de conseguir e entender que não era nada daquilo que eu pensava, passei a ter ainda mais vontade de viver", disse.

"Quando recebi a notícia de que o rim doado, parou de funcionar, fiquei muito triste, mas sabia que um novo doador iria aparecer, pois só de sair da máquina de hemodiálise eu estava muito feliz”, declara. Para dona Rute, que convive com a insuficiência renal e fazia hemodiálise desde 1996, conseguir um doador não é suficiente. “Muitas vezes há falta de medicamentos e não podemos ficar sem, principalmente para quem acabou de receber a doação e pode correr o risco do organismo rejeitar. Além disso, vem muitas pessoas do interior e outros estados e nem sempre tem onde ficar”, critica.

Referência Norte/Nordeste no transplante de rins, fígado, pâncreas e coração, o Imip recebe muitos pacientes encaminhados de outros estados. Como é o caso do agricultor Charles Jesuíno, que veio do município de Marechal Deodoro, em Alagoas. “Estou trazendo os exames para poder entrar na lista de espera. Aos 7 anos perdi um rim, e desde 2016 faço hemodiálise”, explica. “Não desejo essa situação para ninguém, mas temos que nos adaptar e confiar em Deus, ele é a única solução”, completa.

Em tratamento na cidade Paulo Afonso, na Bahia, o padeiro Gilberto Batista da Silva, 40 anos, também foi encaminhado para o Imip, para poder entrar na lista de espera por um transplante de rim. “Estou correndo atrás para ver se consigo um doador. Lembro que no início não queria aceitar. Gosto muito da minha profissão, mas com a hemodiálise não consigo mais trabalhar”, relata. Ele tem um irmão com a mesma doença, e que se encontra na fila de espera há 8 anos. “Foi um baque para nossa família, mas temos esperanças de conseguir um doador”, finaliza.

Sobre a questão da ausência de alguns medicamentos, como a ciclosporina e azatioprina, a reportagem entrou em contato com a Secretaria de Saúde do Estado. Por nota, o órgão esclarece que “há estoque do medicamento ciclosporina (25 mg e 50 mg) na Farmácia de Pernambuco. Já o fármaco azatioprina (50 mg) está em fase de compra pelo órgão estadual. Também há uma remessa do medicamento com entrega atrasada pelo fornecedor, que já foi notificado. Por fim, a SES reforça que a aquisição desses insumos precisa seguir todos os trâmites legais da administração pública”, encerra.

A coordenadora da Central de Transplante de Pernambuco (CT-PE), Noemy Gomes ressalta que o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo. “O paciente recebe medicação gratuita durante todo o funcionamento do transplante, ou seja, se ele conviver 30 anos com aquele enxerto, ele vai receber por 30 anos a medicação. Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos os pacientes só recebem a medicação por um ano”, declara.

Ela reconhece que o Estado tem feito uma força tarefa junto ao Ministério da Saúde para que os medicamentos sejam distribuídos regularmente. “Infelizmente essa falta existe, mas não depende só do Estado. Ele entra com a contrapartida para diminuir as ausências, mas dependemos do planejamento do Ministério da Saúde. Mesmo com essas dificuldades não podemos desvalorizar a grandiosidade do SUS quando falamos em transplante”, conclui.

Rute Soares passou por dois transplantes de rim e celebra a vida sem hemodialise
Rute Soares passou por dois transplantes de rim e celebra a vida sem hemodialiseFoto: Jose Britto
O agricultor Charles Ribeiro espera estar apto para a fila de espera por um rim
O agricultor Charles Ribeiro espera estar apto para a fila de espera por um rimFoto: Jose Britto
O padeiro Gilberto Batista, natural de Paulo Afonso na Bahia, tem um irmão que está há 8 anos na fila de espera por um rim
O padeiro Gilberto Batista, natural de Paulo Afonso na Bahia, tem um irmão que está há 8 anos na fila de espera por um rimFoto: Jose Britto
O médico Amaro Medeiros, responsável pela Unidade Geral de Transplantes do Imip, considera a segunda colocação do Estado em números de transplantes, positivo
O médico Amaro Medeiros, responsável pela Unidade Geral de Transplantes do Imip, considera a segunda colocação do Estado em números de transplantes, positivoFoto: Jose Britto

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