Christiana Brito Caribé da Costa Pinto
Christiana Brito Caribé da Costa PintoFoto: Divulgação

Christiana Brito Caribé da Costa Pinto, juíza da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes, é a convidada desta quarta-feira (6) da coluna Sucesso, uma parceria do Portal FolhaPE com o Sucesso.site, de Felipe, Eduarda e Camila Haeckel.

Tenho tomado conhecimento de festas para adolescentes regadas a bebida alcoólica. Está-se criando na mente do adolescente a ideia de que festa para ser boa, para “bombar”, tem que ser regada a etanol, com um “open bar” destinado aos adolescentes. Festas sem álcool é “mico”.

Estes, por sua vez, se sentem mais motivados a ir para uma festa pelo que o aniversariante tem a oferecer (especialmente a bebida alcoólica), do que para se confraternizar com os amigos e amigas. A exemplo, as festas de 15 anos, tão desejadas pela maioria das meninas, têm se tornado um grande palco desta irresponsável inversão de valores, fazendo com que a aniversariante passe para uma posição de coadjuvante.

 É corriqueiro ouvirmos comentários sobre a insistência das debutantes em convencer os pais de que “sem bebida alcoólica a festa não bomba” e a negativa dos pais em ceder a este “pedido” leva à desistência da comemoração. Outras tantas, conseguem “ditar a ordem”, recebendo a conivência dos pais, que cedem aos apelos da filha, sem se importar com a mensagem implícita neste ato de ceder a algo que é ilegal e prejudica a saúde e o desenvolvimento de sua própria filha e dos convidados desta.

Esse comportamento diz muito sobre a nossa cultura de desrespeito às normas. Cobra-se tanto dos políticos e de outras autoridades! Há tantos reclamos por um País mais sério e mais justo! Porém, somos nós que o fazemos assim. É cada um de nós o responsável pela criação e educação dos futuros políticos, magistrados, promotores, médicos, empresários, professores, etc. E nós estamos educando muito mal, invertendo ordens, hierarquia e valores.

Quem está ditando a regra do jogo são os nossos filhos e, talvez, a razão esteja no nosso desejo inconsciente ou consciente de compensar nossa ausência, excesso de trabalho e/ou compromissos sociais. Além disso, outra razão pode estar relacionada ao desejo de que nossos filhos sejam aceitos e inseridos em determinados grupos, dos chamados “populares”.

Por outro lado, quem mantém os princípios morais, éticos e jurídicos é visto como “careta”, como uma pessoa rígida e inflexível, incapaz de acompanhar as péssimas transformações de valores que estamos vivendo!!! A corrupção está começando dentro de nossas casas. Já dizia Mahatma Gandhi “sejamos nós a mudança que queremos ver no mundo”.

O uso de bebidas alcoólicas, além de ilegal, oferece riscos à sociedade e à saúde do indivíduo. Os riscos são potencializados nos menores de idade. As condutas de vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, de qualquer forma, a criança ou a adolescente, bebida alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica, estão previstas como crime no artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

A pena é de detenção de dois a quatro anos, e multa, se o fato não constitui crime mais grave, como o óbito, por exemplo, que poderá ser enquadrado como homicídio. Além da responsabilização criminal do agente ativo da conduta, há ainda sanções administrativas para o estabelecimento comercial, que estará sujeito a pena de multa e interdição do estabelecimento.

Apesar de todas essas circunstâncias, os pais estão sendo os principais incentivadores do uso prematuro de bebidas alcoólicas pelos filhos e os amigos destes. Vale lembrar, que a bebida alcoólica, embora socialmente aceita, é a porta de entrada para outras drogas. Os adolescentes, ao terem contato com o etanol, estarão mais vulneráveis a aceitar ofertas de outros entorpecentes, bem como a se colorarem em inúmeras outras situações de risco, como até mesmo o abuso sexual.

As condutas tipificadas no artigo 243 do ECA são ilegais justamente porque ciente o legislador dos seus sérios riscos. São inúmeros os males decorrentes para a sociedade e para o indivíduo. Um dos exemplos são os números alarmantes das mortes no trânsito, causadas por condutores alcoolizados. As taxas de acidentes onde houve o uso de álcool são maiores na faixa etária entre de 16 a 20 anos do que nos motoristas maiores de 21 anos. Lembremos, ainda, do alto índice de crimes contra a integridade física, incluindo violência doméstica, abusos sexuais e homicídios, praticados por indivíduos sob efeito de bebida alcoólica, o que, obviamente, não exclui o crime.

No que tange à saúde, os adolescentes são extremamente vulneráveis aos danos cerebrais causados pelo etanol, o que pode contribuir para o fraco desempenho escolar, além de aumentar a chance de desenvolver uso abusivo e dependência alcoólica, sem falar em outras doenças como a depressão, transtorno de ansiedade, etc.

Os que começam a beber no início da adolescência apresentam predisposição quatro vezes maior de desenvolver dependência dessa substância do que aqueles que fizeram seu primeiro uso aos 20 anos ou mais de idade. A bebida alcoólica está relacionada ao maior número de óbito de jovens do que todas as drogas ilegais juntas, ou seja, é a substância que causa maior número de mortes de jovens. Está também relacionado com gestação indesejada e sexo sem prevenção. Ademais, a relação familiar sofrerá forte abalo, com possível quebra ou enfraquecimento dos vínculos parentais.

Precisamos resgatar a nossa posição, como genitores responsáveis pela manutenção das regras da família. Devemos compensar nossas eventuais culpas com amor, diálogo e momentos de lazer. Estudos sugerem que o uso prematuro de álcool está associado ao desejo de pertencer a um determinado grupo e, nós, pais, estamos reforçando negativamente esse desejo, ao ceder às pressões dos nossos filhos e filhas, acreditando que terão maior valor e serão mais bem aceitos se usarem bebidas e outras drogas.

Fica o alerta de quem trabalha para resgatar famílias, destruídas pelo uso abusivo de álcool e outras drogas e pela incapacidade de impor limites aos filhos.

PERFIL
Pernambucana, filha do Procurador da República Carlos Caribé e da dona de casa Iranice Caribé, sempre se sentiu vocacionada para a área social. Desde a adolescência, tinha interesse em ajudar crianças e adolescentes acolhidos e em situação de mendicância e vivência de rua. Dividida entre os cursos de Direito, Psicologia e Assistência Social, optou por Direito, por influência da família, muito voltada para a área jurídica.

Em 1994, ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Em 1996 trancou a faculdade por um semestre, a fim de estudar na Inglaterra. Retornando ao Brasil, foi aprovada para estágio no Ministério Público de Pernambuco, quando teve a oportunidade de estagiar na área da infância e juventude. Concluiu o curso de Direito em 1999, passando a exercer a advocacia com seus irmãos Paulo e Luciano Caribé. Em 2002 concluiu o Curso de Preparação à Magistratura e Aperfeiçoamento Jurídico.

Em 2004 concluiu Mestrado em Direito das Relações Sociais pela PUC/SP. Em 2005 ingressou na Magistratura de Pernambuco, exercendo o cargo em Cidades do Sertão, Agreste e Zona da Mata Pernambucana. Desde 2015 é Juíza Titular da Vara da Infância e Juventude do Jaboatão dos Guararapes, criando o Programa de Apadrinhamento Anjo da Guarda, que busca promover o Direito à convivência familiar e comunitária às crianças e adolescentes que vivem em Instituições de Acolhimento, proporcionando, ainda, atividades de reforço escolar, esportes e cursos profissionalizantes, com o objetivo de prepará-los para uma vida autônoma.


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