Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com ela
Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com elaFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

Em 12 de janeiro de 2010 o Haiti sofreu um terremoto de magnitude 7 e mais de 300 mortos. Neste sábado, 12 de janeiro de 2019, eles se reúnem para lembrar o dia. Desde o abalo sísmico, muita coisa mudou, principalmente, a noção de comunidade. Foi necessária uma tragédia para que os haitianos despertassem para a percepção de que vivem juntos e precisam se ajudar. Antes, viviam como os brasileiros, desigual e individualmente.

“Nos dias seguintes ao terremoto, sem termos nada, nem mesmo água, sentimos que éramos irmãos. Caiu a casa do rico e a do pobre”, contou o haitiano Ferdinand Estinor, 46, que estava em Porto Príncipe, capital do Haiti e local mais atingido pelo tremor de terra. Primeiro, levaram os feridos aos hospitais, abarrotados. Depois, dormiram juntos na rua.

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Sob o lema “juntos, somos capazes”, construíram uma cidade sem ajuda governamental. Realizaram cotas entre si e pavimentaram algumas ruas. Mesmo pessoas que não perderam suas casas foram formadas por ONGs internacionais e ergueram prédios residenciais preparados para suportar terremotos.

A Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com ela.

Deplat Rodene, 46
Eu estava vendo televisão no primeiro andar da minha casa, em Porto Príncipe, quando a terra começou a tremer e tudo desabou. Minha família estava no térreo, abaixo de mim. Eu caí sobre eles. Minha esposa e meu filho mais velho conseguiram sobreviver. Meu caçula, de dois anos, morreu.

Era perto das quatro horas da tarde e a casa mexia tanto que eu não conseguia ficar em pé. Eu não sabia o que fazer, já que nunca nos foi oferecido nenhum tipo de treinamento. Hoje, ao menos, sabemos que precisamos abrir bem as pernas e tentar segurar em determinados locais que supomos que não vai cair ou sentar.

Eu era médico radiologista, especializado em Saúde Comunitária, do Hospital Santa Catarina, localizado na favela mais perigosa do Haiti. Mas, com o terremoto, muitos hospitais fecharam. Tanto porque havia superlotação quanto porque os profissionais que trabalhavam lá morreram. Outros perderam sua estrutura física.

Com o terremoto, as ruas deixaram de existir como eram e ninguém conseguia se encontrar. Uma pessoa estava num lado da cidade e o parente no lado contrário. O chão estava tomado de corpos. Eu me mudei por um mês com minha esposa e meu filho para o centro do país, onde as coisas não estava tão caóticas quanto aqui. Precisava me recompor do trauma, me estabilizar psicologicamente e pensar o que eu iria fazer. Voltei e recomecei como médico da comunidade, era quando os hospitais estavam voltando a funcionar.

A única coisa que o governo fez foi disponibilizar um grande espaço, chamado Canaã, para as pessoas. Então, muitos que perderam tudo passaram a ter que vir para cá, mas todo mundo dormia na rua. Também, muita gente que não perdeu as casas vinha dormir nas ruas também, em solidariedade. Nós nos juntamos e delimitamos, demarcamos e povoamos toda a Canaã. Construímos as casas junto com ONGs e, inclusive, demos os nomes às ruas. A vila hoje tem mercado, lojas e, claro, as residências.

Luc Odner, 46
Eu estava na rua, dentro de um tap tap (espécie de grande táxi compartilhado, comum no Haiti). Achei que eu tinha sofrido um acidente, que tinha batido em um caminhão. Depois de cinco minutos, tempo que durou o terremoto, despertei e vi um homem totalmente desfigurado, esmagado. Ele ainda não estava morto. E essa cena foi muito forte para mim, ficou muito marcada.

Depois disso comecei a andar pela cidade e tudo que eu via eram cenas semelhantes à primeira. Vi numa escola uma mulher com os órgãos para fora, acho que uma professora, e uma dezena de crianças, todas mortas. Do terremoto, não sai da minha cabeça a imagem de uma quantidade interminável de corpos sob escombros e os cães que se alimentavam deles.

Era impossível circular e encontrar a minha casa, porque tudo estava destruído, tudo eram escombros. Quando finalmente encontrei minha casa. Não estava totalmente destruída e minha esposa e meus dois filhos, tinha conseguido sair e se salvar.

Muita coisa mudou depois do terremoto. Primeiro a percepção de certas coisas como casa e comunidade. Eu ajudei a construir casas em Canaã. Inclusive uma para mim mesmo, própria, porque antes eu vivia de aluguel. Vizinhos passaram a compartilhar comida. Pensam: “eu tenho isso e você não tem, tome”.

Antes havia um sentimento de inferioridade entre quem era mais pobre, por exemplo. Isso mudou. Hoje nos vemos todos como iguais. Caiu a casa do pobre e do rico. E depois, para pavimentar as ruas e realizar serviços públicos - já que o governo esteve sempre ausente-, fazíamos vaquinhas. Casa pessoa pagava um pouco.

Enquanto isso, os Estados Unidos e a França, um novo explorador e um antigo colonizador, brigavam entre si para ter uma espécie de monopólio de ajuda. O primeiro chegou logo e tomou o aeroporto. A França não podia aterrissar por causa disso e vinham por terra pela República Dominicana. Era uma disputa para ver quem ia ajudar e acabou no “deixa que eu deixo”. Ninguém ajudava e mais pessoas morriam.

As ONGs internacionais nos ajudaram. Pessoalmente, ganhei nova profissão por causa delas. Ofereceram cursos de construção de casas anti-sísmicas para pedreiros, encanadores, eletricistas. Eu era só encanador e hoje eu sei todas as regras para construir uma casa que não perca a estrutura geral com um terremoto.

Salma Simeus, 41 anos
Mesmo em 2010 minha casa já era anti-sismo. Não aconteceu nada com ela. Eu escutei um barulho fortíssimo, como um grande trator passando e levantando muita poeira. A casa vizinha estava sendo construída, caiu e matou uma pessoa.

Saí para descobrir o que estava acontecendo. Comecei a ajudar os machucados. Tirando pedras de cima deles para levar para o Hospital, por exemplo. Lá estava um caos, porque muitos fizeram como eu e levaram as pessoas para serem atendidas. E porque não tinha gente para atender, já que os médicos haviam morrido. Tudo fechou. Não tinha mais como carros andarem. Eu era policial parlamentar. Perdi emprego porque os prédios governamentais todos caíram e os contratos se perderam.

Meu irmão era deputado e, a partir dele, conseguia suprimentos para distribuir para as pessoas. Eu continuava dormindo na minha casa. Mudei-me para Onaville, dentro de Canaã, e tornei-me um voluntário fixo. Sabia as necessidades das pessoas e trazia para as organizações estrangeiras, facilitando o trabalho deles. A primeira função organizada que abracei depois do terremoto foi o de delimitar e criar as ruas de Onaville. As casas estavam sendo criadas e isso era necessário.

Criamos associações de desenvolvimento comunitário e as ONGs nos chamaram para que ajudássemos não só na minha vila, mas em toda Canaã. A partir daí, comecei a fazer um trabalho de sensibilização da comunidade, mostrando como era importante que eles se engajassem cívica e socialmente. Isso foi muito bom para o meu desenvolvimento intelectual. Ajudando as organizações, recebi formações e rapidamente aprendi o que só seria possível em anos de faculdade.

Uma peruana voluntária e me aconselhou a começar um negócio. Passei a plantar acácia-branca no meu terreno e a fazer uma pasta com a sua folha, chamada pasta de moringa. Uma organização investiu em vários projetos de empreendedores como o meu, compraram materiais no valor de R$12 mil.


Ferdinand Estinor, 46
Eu estava jogando dominó em frente à minha casa e escutei um barulho. Um barulho que nunca ouvi na minha vida, porque o último terremoto aqui foi em 1942. Comecei a olhar em volta de mim e vi uma casa se mover como se dançasse. Do nada, a casa do meu vizinho caiu e tudo começou a mexer. Não conseguíamos ficar em pé. Tudo ficou em silêncio, um silêncio ensurdecedor. Ele só começou a ser cortado por gritos de socorro.

Todo mundo que morava naquela zona estava perdido. Ninguém estava entendendo nada do que estava acontecendo. Acontecia durante uns quinze segundos e se repetia a cada minuto. Estávamos apavorados. Não cai tudo de vez. A maioria dos prédios só vão caindo depois dos terremotos. E caíram. Logo depois veio a noite. Sem energia, sem telefone, sem contato com ninguém.

Meu irmão, que estava na universidade, conseguiu chegar até mim, com as roupas todas rasgadas. Ele me disse que começou a correr sem parar na direção em que estava a minha casa, ouvindo gritos como os que eu ouvia. Dormimos na rua, com medo de que outro terremoto ocorresse ou que a casa que entrássemos caísse. Não sentíamos fome nem sede ou qualquer outra sensação. Não conseguíamos pensar nisso. Estávamos eu, meus dois irmãos e três sobrinhos e pensávamos “será que vai haver um próximo dia?”.

Resolvemos ir à igreja e no caminho é que percebemos a destruição. Lá não tinha água, não tinha banheiro, não tinha telefone, não tinha eletricidade. Só tinham pessoas. Entre 500 e mil pessoas. Foram três dias sem água nem para beber. Foi nesse momento em que percebemos que todos os haitianos estavam vivendo como irmãos.

Fazíamos as necessidades em sacos plásticos e jogávamos em qualquer lugar. Isso era assim em todo lugar. Eu, que trabalho com agente sanitário, comecei a educar as pessoas em relação à higiene, para que se previnam em relação às doenças, como a cólera, que é muito comum. Hoje, não penso se perdi minha casa. É a vida. E a vida continua.

Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com ela
Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com elaFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco
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Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com elaFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco
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Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com elaFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco
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Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com elaFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco
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Folha de Pernambuco ouviu diferentes haitianos que viveram o momento do tremor em 2010. Eles contam como viram a catástrofe e as lições que aprenderam com elaFoto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco
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